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Imagens da Quimera




Roteiro: GRUPO TEATRAL MOITARÁ.
Concepção e Direção Geral: VENÍCIO FONSECA.
Com ERIKA RETTL e DANIELA FOSSALUZA.

Em cartaz no Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro.




   Num cenário de fundo preto com pequenas e pontuais fontes de luz, a figura feminina de inspiração oriental (nas vestes, no idioma e, principalmente, na máscara que lhe esconde o rosto) circula curiosa entre os sons de uma floresta. É desse ponto de partida que Imagens da Quimera articula todo um universo de fábula e sonho, apoiando-se no encantamento e na estranheza para conduzir o público durante esse curto e surpreendente espetáculo.

    Ainda que inspirado no conto Lá Aonde se Encontra, de Martin Buber, Imagens da Quimera não segue uma linha narrativa tradicional, e o conjunto de sensações que desperta vem de fragmentos nem sempre racionalmente justificáveis. Por todo o tempo o espectador se vê diante de uma representação que remete ao sonho, e que o leva a um lugar de respostas escassas. Isso faz corajosa a iniciativa dos realizadores, pois tal opção tanto pode enternecer quanto entediar o público médio, desacostumado à delicada e intensa poesia que o Grupo Moitará, mais do que para contar uma história, utiliza para transmitir sensações.

    O grupo vem desde 1988 trabalhando com o uso da máscara na linguagem cênica. Aqui ela é utilizada tanto na formação das identidades dos personagens quanto na criação de uma identificação / transformação entre a personagem da menina com a de boneca encontrada dentro de um baú, como um tesouro. Imagens riquíssimas de beleza e sugestão mostram o despertar da boneca, manipulada pela menina (que seriam a mesma pessoa), e ilustram, no contato com o mundo ao redor (o toque do xilofone, a passagem do trenzinho), a curiosidade, o encantamento, a perda e o medo. Este surge na figura da velha, espécie de bicho-papão cômico que, curiosamente, é a única a dizer palavras compreensíveis ao público. Será ela que carregará a boneca, manipulando depois a menina como se fosse uma boneca ampliada, e denunciará à platéia, em frases imprecisas, os sentimentos da outra.

    Para contar essa fábula onírica sobre a existência, o diretor Venício Fonseca preferiu a simplicidade de recursos, dedicando-se principalmente ao trabalho de pesquisa com as atrizes e à intrigante trilha sonora. Erika Rettl concebeu sua Mitôa (a menina) com tamanha delicadeza gestual e vocal que muitas vezes parece que vai quebrar, de tão frágil. É composição que surpreende e encanta. Já Daniela Fossaluza constrói uma velha baseada em excessos, caricata, cômica, seguindo uma orientação oposta à da outra personagem. Suas frases sem pé nem cabeça pouco dizem, mas é curioso como uma simples constatação ("A boneca tá sonhando!" ou "Tá cheia de medo!") pode causar impacto no espectador. Também cabe destacar a trilha sonora de Adriana Miana, mistura de frases melódicas de inspiração oriental com sons percussivos. Muito do encanto do espetáculo deve-se a capacidade da trilha em imitar sons da natureza, como o de um grilo e, principalmente, o da água. (M. L.)


Fotos: Celso Pereira


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