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Deserto Iluminado
Texto e direção: CAIO DE ANDRADE.
Co-direção: ADRIANA MAIA.
Com XANDO GRAÇA, ANGELA REBELLO, LEONARDO BRÍCIO,
LARISSA BRACHER, ROBERTO BOMTEMPO.
Em cartaz no Teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil,
no Rio de Janeiro.
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Lugar fascinante era o Rio de Janeiro do início do século 20. Enquanto a Europa se
arrebentava em guerra, por aqui as transformações ocasionadas pelo progresso levavam, de um
lado, os miseráveis a revoltas, enquanto que, do outro, os endinheirados deleitavam-se com a
efervescência industrial e cultural, que proporcionava tanto a abertura de acessos para as
isoladas regiões paradisíacas da zona sul, quanto a proliferação dos cafés chiques e dos
cinematógrafos. Visitantes ilustres vinham por aqui apresentar-se, sendo logo engolfados pela
alta sociedade carioca, à qual não faltavam atores, escritores, políticos. Um luxo.
É nesse ambiente que se desenvolve a história de Deserto Iluminado. O autor, Caio
de Andrade, não é iniciante em trazer eventos históricos para o palco. Sua peça anterior foi
Os Olhos Verdes do Ciúme, ficção misturada com realidade tratando da discreta vida
amorosa de D. Pedro II. O texto atual se detém em personagens não menos atraentes: a peça relata
o encontro, que de fato ocorreu, entre o cronista carioca João do Rio e a bailarina americana
Isadora Duncan. Duas figuras sofisticadas, brilhantes, rebeldes e à frente de seu tempo. João
do Rio foi membro da Academia Brasileira de Letras, escritor e tradutor. O nome era pseudônimo,
chamava-se na verdade João Paulo Barreto, mas deixou-o conhecido como grande boêmio e amante da
vida noturna, pela qual circulava com desenvoltura. Gordo, irreverente, homossexual, irônico,
observador, não escapou de todo tipo de envolvimento com as personagens que habitavam suas
crônicas.
Já Isadora Duncan tornou-se mito não só pelo talento no palco, mas pelo comportamento
fora dele. Obcecada pelo corpo humano e pela liberdade deste, realizou espetáculos dançando
seminua ao som de clássicos da música, fazia discursos revolucionários em cena, e desagradou o
conservadorismo norte-americano da época, principalmente engravidando várias vezes sem ser
casada. Passou uma curta temporada no Rio de Janeiro em 1916, apresentando-se no Teatro
Municipal e tornando-se amiga de modernistas como Oswald de Andrade e do próprio João do Rio, em
cuja residência em Ipanema teria se hospedado.
E é em Ipanema que a peça tem início. O encontro de um par de sapatos, pertencentes à
Baronesa Amália Prado, junto com uma mancha de sangue na areia da praia, e o desaparecimento do
figurão Kóstya Olbrimeck, levam o Inspetor Faustini a visitar João do Rio suspeitando de
assassinato, embora o bronco policial nem chegue perto da teia de relações que envolve o
jornalista, a dançarina que hospeda, a baronesa (esposa do Barão de Porto Belo, que à época
estava em viagem) e o desaparecido. O passado que é apresentado então, em recorrentes flash
backs, revela aos poucos um romance entre Duncan e Kóstya, então um pintor búlgaro
revolucionário que troca de identidade e foge pelo mundo, tornando-se amigo do Barão, homem
severo e amargurado com a possibilidade de ser estéril.
Como se pode ver, é um texto cheio de possibilidades, sustentado em trabalho de pesquisa
que deve ter sido tão intenso quanto prazeroso. Mas Deserto Iluminado, ao contrário do
que prometem as expectativas, termina por revelar-se um equívoco. Os diversos aspectos da
história são tratados de maneira didática e detalhista, mas a carência de densidade dramática
para narrá-los deixa tudo tão superficial que o texto se arrasta. Nos momentos em que se fala
da perseguição sofrida pelo búlgaro não se vê a tensão necessária que torne interessantes tanto
os entraves políticos que o levam a fugir, e muito menos os efeitos da fuga na personalidade do
personagem. Culpa de uma direção fria e de um elenco quase que inteiramente despreparado,
incapaz de sair da superficialidade ou da caricatura. Como Isadora Duncan, Angela Rebello está
mais para uma socialite deslumbrada do que para uma mulher que enfrentou as convenções sociais
de sua época e trouxe uma vida de conquistas na bagagem. Leonardo Brício faz um Kóstya
excessivamente sorridente e sem qualquer profundidade, tornando constrangedora a sua declamação
do poema de Vladimir Maiakóvski. Roberto Bomtempo faz dois personagens, o Barão e o Inspetor
Faustini: o primeiro, um homem que largou a literatura para ser coroado e foi aos poucos tomado
pelas sombras, surge apagado e inexpressivo; o segundo é uma caricatura. Ambos parecem frutos de
um improviso sem qualquer trabalho de composição, o mesmo valendo para Larissa Bracher, a
Baronesa, cujo trabalho pouco se vê. Tudo isso num cenário pouco criativo reproduzindo uma
espécie de cais na areia da praia, sob uma iluminação que limita-se ao essencial, que é não
deixar os atores no escuro.
Salva-se no elenco o ator Xando Graça. Seu João do Rio tem um ar meio bêbado, meio
entediado, terrivelmente irônico e discretamente afetado. São suas as melhores falas da peça,
inclusive a narração da mesma, o que permite comentários mordazes sobre o que está acontecendo,
inclusive sobre o que vai acontecer, já que fala até de como será a sua própria morte. Também
interpreta outro personagem, o Delegado Sabiá, que faz dupla com Faustini, e, como este,
concebido de forma caricata, visando o humor fácil. (M. L.)
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