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T    E   A   T   R   O




Rompecabeza




Texto e direção: WALTER DAGUERRE.
Com CAMILO PELLEGRINI, ELISA PINHEIRO, EROM CORDEIRO, JULIA SARMENTO, LUDMILA BREITMAN, LUIZA AUTRAN, PEDRO ANTONIO PAES, RODRIGO VASCO.

Em cartaz no Teatro Glória, no Rio de Janeiro.




Foto: Mauro Kury


   "O que você faz para sentir-se bem?"

   Na adolescência, os amigos Telmo e Horácio respondiam a pergunta acima ouvindo rock, jogando War e indo ao Maracanã. Hoje isso não funciona mais. Para Telmo, o sentimento de vazio que continua no peito não se resolve nem com bebida, ou drogas. Armado de um revólver e após abandonar a casa e o emprego, o rapaz irá apresentar ao amigo o plano, que considera revolucionário, para endireitar a sociedade.

    Essa história irá misturar-se a outras duas. Trancados no banheiro de um shopping às vésperas de gravar um comercial de refrigerante, os três membros de um grupo de teatro, Galeano, Lídia e Joana, questionam o rumo de suas carreiras e se devem mesmo prosseguir. Paralelamente, enquanto remexem numa caixa com recordações, as amigas Camila e Alice se deixam envolver uma pela outra, até serem descobertas por João Pedro, marido de uma delas.

   Aparentemente independentes e sem qualquer relação entre si, as tramas se encontrarão ao final de Rompecabeza, peça que vem aumentar o (felizmente) cada vez mais movimentado circuito alternativo carioca, com espetáculos encenados em locais e horários fora do padrão comercial. A apresentação, que se inicia à meia-noite, começa com o público (30 pessoas apenas por seção) entrando pelo camarim dos atores e se acomodando em cadeiras dispostas no palco. Mas a invenção vai pouco além disso. Seqüências fragmentadas e desconexas, música techno e luz estroboscópica, embora aparentem um desejo de ruptura e provocação, surgem mais como um enfeite a preencher lacunas na narrativa.

   Telmo, o rebelde personagem que muda o próprio nome para Neo e a certa altura passa a vestir-se como o herói de Matrix, alega em certo instante a vontade de "viver a vida pelos extremos, e não pelas extremidades". A frase é forte e atraente, e tanto ela quanto aquele que a profere mereciam ser melhor desenvolvidos. O texto cria uma expectativa a respeito do tal "plano revolucionário", para depois permitir que a mesma se frustre com uma idéia que, hoje, mesmo o jovem mais radical desconsideraria. Sobra para o ator que faz o irônico Horácio, que retribui as melhores falas com o melhor desempenho em cena.

   Já as demais tramas limitam-se a mostrar outras faces da mesma insatisfação em relação à vida, seja vendendo-se ou não ao "sistema", como o grupo de Galeano, seja entregando-se à rotina do casamento, como fez Alice. Acaba ficando a insatisfação pela insatisfação, sem que dela se tire qualquer proveito, e tudo o que Rompecabeza (o título refere-se a uma banda montada na adolescência por um dos personagens) consegue com isso são momentos nem sempre eficientes buscando abrir os olhos e "sacudir" o espectador. Galeano pergunta qual a diferença entre fazer teatro e montar uma peça, afirmando não querer aquele público que chega cansado do trabalho e deseja apenas uma coisinha para se distrair. A única a não extravasar seus sentimentos é Alice, que tanto se fecha em si mesma que o conservador marido seria capaz de trancafiá-la num hospício, não fosse a providencial interferência de Camila.

   Todos buscam alguma coisa que os livre de sua condição estagnada. Anseiam por uma transformação que, quando acontece, não é da forma que se esperava. A peça não apresenta, nem quer apresentar, soluções. Quando as tramas enfim se cruzam (o que é feito de maneira criativa), o caos narrativo só faz acentuar-se, e o desfecho parece acontecer por pura falta de opções. A peça acaba como que à força. Partiu de um ponto interessante para perder-se no meio do caminho, e o público, que não conseguiu envolver-se com aquilo que lhe foi apresentado, sai do teatro com a sensação de ter visto uma encenação caseira para amigos, ainda que não seja essa a sua intenção.

   A direção do também autor Walter Daguerre encara a questão do espaço mínimo (o elenco transita pelo que sobrou do palco) dando à peça uma dinâmica por vezes exagerada. Os esforçados atores deslocam-se demais, gritam demais (os homens, principalmente), e o que resulta daí é a impressão de não saberem o que fazer com seus personagens, ou não terem tido tempo suficiente para estudá-los, pois faltam-lhes dimensão e profundidade. Curiosamente, para um espetáculo que se pretende forte e provocante (ao menos, foi o que anunciou-se na imprensa), faltou ousadia e experimentação. Em casos como este não há por que não ultrapassar limites e trazer a encenação para a platéia, os camarins ou mesmo a rua, e tampouco utilizar o improviso ou outros recursos cênicos. Quem vai assistir uma peça à meia-noite certamente não quer se distrair após um dia cansativo de trabalho. Quer surpreender-se, quer experimentar emoções. No mínimo, quer sair do teatro com a sensação de ter visto algo que o enriqueceu. No bem comportado e incompleto Rompecabeza, por melhores e bem vindas que sejam suas intençõesnada disso acontece. (M. L.)



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