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Nosferatu
Um Pouco de Nós




Texto e direção: MARCOS HENRIQUE REGO.
Com GUILHERME MARIZ, ANDRÉ GRACINDO, ANNA SCHULER, CRISTINA DO LAGO.

Em cartaz no Casarão da Bambina, no Rio de Janeiro.






   No decorrer de Nosferatu - Um pouco de nós, há um momento onde o protagonista lembra que, "nesse exato instante", o curandeiro de uma tribo africana está aconselhando os demais membros homens a fazerem sexo com suas próprias filhas, a fim de evitarem a contaminação pela Aids. Na pequena e chocante informação estão contidos todos os elementos que a peça do diretor-autor Marcos Henrique Rego quer abordar: medo, desinformação, selvageria, sangue, e uma praga que se espalha sem controle. Na raiz disso tudo está o mal, sentimento / entidade / maldição que acompanha a humanidade desde o seu nascimento, independente de avanços na ciência e na cultura, permitindo que a realidade não só escape de nosso comando em termos de irracionalidade e violência, mas chegue a um ponto capaz de ultrapassar a própria ficção.

   É este mal, encarnado na figura repulsiva do vampiro Nosferatu, que é aqui posto literalmente em julgamento. Apresentada num casarão abandonado do século XIX, a peça é uma discussão a respeito da legitimidade dessa mancha escura que parece ocupar metade de nossos pensamentos, desejos e impulsos, realizada sob a forma de um tribunal com acusação, defesa e testemunhas, cabendo ao público a condenação ou absolvição do réu. A idéia é bem propícia para que se realize em cena um jogo ao mesmo tempo reflexivo e excitante, pois no embate que o bem e o mal travam diante do público surgem elementos que provocam tanto indagações sobre quem são realmente esses pólos tão opostos, quanto causam no espectador pequenas surpresas decorrentes dos detalhes inseridos na dramaturgia.

   Boa parte da platéia já chega ao salão / tribunal com certo desconforto por saber tratar-se de peça "interativa", rótulo que desagrada os mais tímidos (embora não haja o que temer, visto que a participação de cada um na peça resume-se a votar, ao final, contra ou a favor do réu). Mas aos poucos o público vai se deixando envolver no clima forjado pelo diretor, que para a ambientação utilizou-se apenas de velas para iluminar o espetáculo, e de um cenário decadente com um círculo de areia ao centro, mais parecendo palco de um ritual de magia negra do que de um julgamento. Há alguns interessantes sustos em cena, como a aparição do protagonista e algumas de suas reações às argumentações do advogado, além da participação de duas vampiras que não apenas auxiliam na defesa de Nosferatu como se locomovem de maneira discreta, mas tentadora, entre o público masculino.

   O texto discorre didaticamente sobre crendices populares, literatura e ciência para mostrar o quanto o mal é parte integrante de nosso imaginário, e nesse ponto comete um erro ao assumir posição. Por todo o tempo vê-se o advogado perder-se nos argumentos da acusação, vê-se o próprio acusador oscilar entre o que acredita e o que deseja, enquanto que o réu, o mal, assume posição irônica e superior. Não é de se espantar que, na votação, quase sempre vença o vampiro (na noite de 06/12 venceu o bem, "pela primeira vez", segundo informou o elenco). Seria mais interessante se o texto mantivesse certo distanciamento da discussão, de forma a tentar gerar pelo menos a dúvida na platéia. Maior atenção ao personagem do advogado (interpretado com excessivo nervosismo por André Gracindo) também seria recomendável, pois desde o início vê-se alguém aflito, beirando o desespero, o que o torna pouco convincente e incapaz de executar a árdua tarefa de fazer o público votar contra o próprio autor da peça.

   Do elenco, Guilherme Mariz, o Nosferatu, destaca-se mais pelo peso de seu personagem do que por mérito próprio, embora perceba-se no gestual (talvez a voz devesse ser melhor trabalhada) o bom trabalho de construção empreendido pelo ator. Dentre as mulheres, não se entende por que a personagem de Cristina do Lago tenha apenas uma fala em todo o espetáculo, limitando-se a tocar ao vivo peças de Chopin e Beethoven ao piano e a exibir uma sedutora fragilidade. Na única vez em que se manifesta verbalmente, nota-se que a beleza física da atriz também se estende à voz. Já Anna Schuler aparece mais, e, em oposição à outra personagem feminina, esbanja exuberância e sensualidade.

   Embora ainda esteja sofrendo reformas (parece que irá tornar-se centro cultural), o casarão que serve de cenário poderia ser melhor utilizado, com os atores e o público circulando por seus cômodos. A iluminação seria mais interessante se houvesse menos velas, dando um pouco mais de espaço à escuridão. Destaque para a trilha sonora, tanto a gravada quanto a executada ao piano. (M. L.)



Sítio oficial da peça: http://www.nosferatu.com.br


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