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Alice Através do Espelho
Da obra de LEWIS CARROLL.
Adaptação, tradução e texto: : MAURÍCIO ARRUDA MENDONÇA.
Direção: PAULO DE MORAES.
Com LILIANA CASTRO, PATRÍCIA SELONK.
Em cartaz na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro.
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No clássico que Lewis Carroll escreveu entre 1865 (ano de Alice no país das
maravilhas) e 1872 (ano da seqüência, Alice através do Espelho e o que Alice encontrou
por lá), a menina Alice ia parar num universo onírico e surreal, onde a cada instante as
suas próprias referências de tempo, espaço e sentido eram postas à prova. Seres mirabolantes e
eventos espetaculares desafiavam-na insistentemente a responder indagações primárias,
questionando cada um dos conceitos que Alice levara sua curta vida para estabelecer.
A história era dedicada às crianças, mas de tão rica e provocante permitia leituras que
fascinaram também os adultos. O entendimento dos mundos de Alice, caóticos e delirantes, como
parábolas da mente humana transformavam o país das maravilhas em reduto de observação da própria
sanidade, e do que dela restaria após a quebra de seus padrões. Acrescente a isso a biografia de
Carroll, na verdade Charles Lutwigde Dodgson, reverendo da Igreja anglicana e professor de
Matemática em Oxford, cujos poucos amigos resumiam-se a meninas de 8 a 12 anos, a quem
fotografava de forma claramente erótica, e a leitura de seus livros poderá certamente adquirir
novos significados.
Mas a pedofilia de Lewis Carroll não é o tema principal do espetáculo que transformou-se no
maior sucesso da Armazém Companhia de Teatro, grupo que formou-se no Paraná em 1987, e que hoje
tem como base a Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Com um repertório já conhecido pela busca
de um teatro que vá além da narrativa tradicional, a Armazém procura estabelecer com seu público
uma relação de intensidade, utilizando-se de temas que possam provocar o imaginário do
espectador e permitam o uso de elementos cênicos que causem tanto o encanto como a vertigem.
Encenado pela primeira vez em 1999 e freqüentemente reapresentado, Alice Através do
Espelho tenta levar essa intensidade às últimas conseqüências fazendo com que o espectador
acompanhe literalmente a trajetória alucinada da protagonista. A platéia, assim, após ser
recebida com xícaras de chá, segue o elenco através de uma agitada troca de ambientes, sobe por
escadas, escorrega por tobogãs no escuro e é obrigada a caminhar curvada sob um teto baixo,
fazendo com que a peça não seja recomendada para pessoas com claustrofobia ou dificuldades de
locomoção. Os demais podem preparar-se: serão movimentados, surpreendentes e divertidos os
cinqüenta minutos que os separam do final.
Alice é uma linda jovem que acorda de um sonho aparentemente para entrar em outro.
Depara-se com seres estranhos que a levam numa viagem para dentro do espelho, ingere uma
beberagem que a faz encolher e crescer, conversa com animais e plantas falantes, loucos,
debochados, gente cujos diálogos e razão não lhe fazem qualquer sentido. Em busca de alguma
mínima ordem neste novo mundo, parte em busca de uma rainha seguindo as orientações erradas de
um gato sorridente, até parar no meio de um tribunal durante o julgamento do próprio Lewis
Carroll. A montagem esmera-se nos figurinos coloridos e na trilha sonora de apelo psicodélico
(Beatles, principalmente), e nos cenários de fundo sempre preto o espectador tem a sensação de
estar percorrendo uma espécie de trem-fantasma carnavalesco e clubber. O recurso é tão poderoso
que acaba se sobressaindo ao texto, com o público mais preocupado com a próxima surpresa do que
com o acompanhamento da ação.
Embora Alice Através do Espelho, à primeira vista, pareça espetáculo a exigir de seus
atores mais preparo físico do que talento interpretativo, a necessidade de sutileza na
composição dos personagens, a maioria com inclinação para o humor, não é atendida por todo o
elenco. Liliana Castro constrói uma Alice espevitada, adolescente, que ao mesmo tempo que se
espanta e se
impacienta com as descobertas do novo mundo, não deixa de gostar. Seu desempenho é fundamental
para que o olhar sexualizado da montagem funcione, e Liliana atende as expectativas com
sorrisinhos
marotos e nervosos, que culminam com o beijo na boca no Gato. Como Chapeleiro Louco, Patrícia
Selonk é quem mais chama a atenção num personagem que poderia ser construído unicamente em cima
do deboche e do escracho, mas que a atriz enriquece com nuances de lirismo e infantilidade, como
na seqüência do chá das cinco. Os demais atores alternam-se em vários pequenos papéis, muitas
vezes encenando esquetes a que a própria protagonista limita-se a assistir escondida na platéia,
e parecem prejudicados pela correria da montagem, que na busca pelo impacto dramático preteriu
a interpretação em favor do visual.
O ritmo da peça acaba sendo elemento que favorece e atrapalha. Ao mesmo tempo que cria
momentos instigantes pela beleza ou pela inteligência, como nas cenas dos atores surgindo de
dentro da cama de Alice, ou do teto ficando distante, ou ainda a ótima solução para exibir o
sorriso do Gato, o diretor Paulo Moraes parece perder-se no atropelo criado para tirar o fôlego
do espectador. Trechos excessivamente agitados e barulhentos, por mais que a intenção seja
proporcionar uma situação de caos, acabam tornando-se desagradáveis sem provocar qualquer
estímulo em quem assiste. E mesmo em quem não está assistindo, como as pobres vítimas colhidas
na platéia, vendadas e submetidas a sensações nem sempre prazerosas de tato e audição. Ainda
assim, o que prevalece em Alice Através do Espelho e que lhe rendeu elogios, prêmios e
público, é a inventividade e a saudável inquietação criativa, que faz com que os artistas da
Armazém estejam sempre correndo atrás de novas experiências em sua linguagem teatral.
(M. L.)
Fotos: Anna Agonigi, retiradas do livro Para ver com olhos livres
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