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A Importância de Ser Fiel




De OSCAR WILDE.
Direção: EDUARDO TOLENTINO DE ARAÚJO.
Com BRIAN PENIDO ROSS, DALTON VIGHI, NATHALIA THIMBERG, BÁRBARA PAZ, ELOÍSA CICHOWITZ, LÍLIAN BLANC, PAULO HESSE, GUILHERME SANT’ANNA.

Em cartaz no Teatro Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.






   "A verdade não pode ser simples e pura, senão a vida seria um tédio e a literatura, impossível" . Pronunciada por um dos personagens, a frase pode tanto exemplificar o pensamento da alta sociedade inglesa do final do século XIX (a chamada Era Vitoriana), quanto do aguçado senso de observação e crítica do escritor Oscar Wilde. No texto, frases como esta, tão ou mais mordazes, acumulam-se em ritmo impressionante para exibir o retrato de uma gente entediada, mesquinha, arrogante, improdutiva, esnobe, preconceituosa, corrupta. Prato cheio para uma analogia com a sociedade contemporânea, globalizada, onde a solidez dos valores éticos e morais não resiste ao interesse individual. Sexo, dinheiro, status: "Nas questões importantes, vital é o estilo, não a sinceridade" . A peça é uma comédia, vale lembrar.

    A Importância de Ser Fiel, espetáculo que o grupo Tapa traz ao Rio de Janeiro, trata de aparências, de relações movidas por interesses pouco ligados às questões do coração. Para justificar as escapadelas à cidade, onde flerta com a bela Gwendoleen, John, rico proprietário de terras, inventou para si mesmo a identidade de Fiel, com a qual é conhecido por todos longe do campo. Quando seu amigo Algernon, primo de Gwendoleen e aristocrata falido, descobre não só a farsa, mas a existência de Cecília, jovem de 18 anos portadora de riquíssimo dote (cujo tutor é John), resolve seduzi-la, viajando até o campo e fazendo-se passar por Fiel, o suposto irmão com quem John viveria a se encontrar na cidade. No entanto, com o intuito de pôr fim à mentira e endireitar o rumo de sua vida, John já havia anunciado à família a morte do "irmão" que agora surge, criando uma situação que irá complicar-se ainda mais com a visita surpresa de Gwendoleen.

    Assim, para justificar mentiras cria-se novas mentiras; para adequar-se às regras de etiqueta, cria-se novas regras. Comportamento o qual nem a Igreja evita, na afirmação do pastor de que seu sermão pode ser utilizado em qualquer ocasião. O resultado não pode ser outro além do apodrecimento social, e da deformação de conceitos como educação e confiança. Essa estagnação se explicita na fala de John ao recusar todos os convites de Algernon: não vai ao teatro porque detesta ouvir; não vai ao clube porque detesta falar; não vai ao cabaré porque detesta ficar olhando. Para ele, melhor não fazer nada. Curiosamente, é desse prazer pela imobilidade (visto no momento em que os dois amigos trocam frases sem sentido enquanto fumam ópio) que parece surgir alguma ação: o importante é conseguir uma boa fonte de renda para não precisar fazer mais nada; atividades produtivas devem ser entregues aos empregados.

   Tampouco o amor escapa à corrupção de valores, chegando ao ponto de o objeto do jogo amoroso limitar-se a um nome. Tanto Gwendoleen quanto Cecília apaixonam-se pelo nome Fiel, e não exatamente por aqueles que falsamente o carregam. Ambas afirmam que seriam incapazes de amar alguém que não tivesse tal nome, excentricidade que os dois "Fiéis" da trama tanto compreendem que não hesitam em buscar um pastor (o mesmo do sermão adaptável) que os batize novamente, agora com a nova alcunha. Não causa estranheza no público, no entanto, o rigoroso interrogatório de Lady Bracknell, mãe de Gwendoleen, ao pretendente à mão de sua filha, indo desde às fontes de renda e tamanho do patrimônio a preferências políticas e árvore genealógica, tudo rigorosamente anotado para ser incluído numa lista de pretendentes. Sinal que tal costume não é de todo estranho, mesmo em nossos dias.

   Voltando à comédia após encenar dramas de Tcheckov e Bernard Shaw, o grupo Tapa prossegue em sua fase de "pesquisa sobre as elites" com um elegante espetáculo onde se sobressai o humor ácido, produto de diálogos certeiros aos quais o público precisa ficar permanentemente atento, pois enquanto ri de uma fala corre-se o risco de perder a seguinte. Eduardo Tolentino de Araújo, o diretor, imprimiu charme a cada elemento da peça, da movimentação e composição dos atores aos dois belos cenários (a cargo de Renato Scripilliti), um reproduzindo o interior da residência de Algernon, e o outro o jardim da casa de John. O texto original seria composto de três atos, e a redução para um único não parece tê-lo prejudicado, pois o ritmo com que ele se desenvolve não deixa qualquer lacuna visível.

   Do ótimo e surpreendentemente coeso elenco, chama a atenção o talento de todos os atores, sem exceção, inclusive do coadjuvante que faz os dois criados (excelente quando faz o mordomo de Algernon). Como Lady Bracknell, Nathália Thimberg esmerou-se em criar um cuidadoso desenho da futilidade e da ganância, e é pena que no Rio de Janeiro a atriz Etty Fraser tenha sido substituída por Lílian Blanc, pois, independente da capacidade da substituta, ficou a vontade de ver as duas contracenando. Embora não tão carismático para um papel onde é protagonista, Brian Penido Ross apresenta um rico trabalho de composição gestual e vocal, enquanto que a bela Eloísa Cichowitz parece ter sido intencionalmente contida para que seu bom desempenho como Gwendoleen não se sobressaísse frente aos dos atores convidados, o que fica nítido quando contracena com Bárbara Paz. Marcado pelo muçulmano que interpretou numa novela, Dalton Vighi revela boa verve humorística e não se intimida com a fluidez dos diálogos. Seu Algernon é preguiçoso, fanfarrão, guloso, sedutor, e convincente (ficou ótima a alegórica imagem do "devorador de sonhos"). Outra que parece marcada por um desempenho na TV (no caso, o papel dela mesma num "reality show"), Bárbara Paz às vezes fala mais alto do que o necessário, o que poderia ser justificado como exigência da rica menina do interior que interpreta. Sua Cecília corresponde às características do personagem sem muito acrescentar.

   Grupo nascido no Rio de Janeiro em 1974 como amadores (a companhia iria profissionalizar-se cinco anos depois), o Tapa está hoje radicado em São Paulo, para o qual mudou-se em 1986. Seus espetáculos caracterizam-se pelo requinte da encenação e apuro na escolha do repertório, com montagens que se caracterizam pelo cuidado e pela harmonia de cada elemento em cena. Até agora, o nome Tapa vem sendo garantia de bom entretenimento, e espera-se que com o recente patrocínio de uma distribuidora petrolífera, o público carioca possa ver mais vezes a companhia de que é conterrâneo. (M. L.)



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