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Equus
De PETER SHAFFER.
Direção: LUIZ FURLANETTO.
Com OTÁVIO AUGUSTO, PEDRO GARCIA NETTO, AMÉLIA BITTENCOURT,
LEONARDO THIERRY, MYRIAN PÉRSIA.
Em cartaz no Teatro Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.
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Ao ser insistentemente chamado pela advogada e amiga Ester para tratar de um novo caso, o
psiquiatra de uma cidadezinha interiorana reluta. Com excesso de pacientes e carência de
entusiasmo, Martin, o tal psiquiatra, não se vê em condições de adicionar mais insanidade à sua
própria vida. Muito menos considera-se capaz tornar "normal" quem quer que venha em sua procura.
Mas ele aceita, pela amiga e pela curiosidade despertada com o novo paciente, Alan, um rapaz de
17 anos condenado por cegar seis cavalos com um estilete de metal.
É partindo desta bizarrice que o dramaturgo inglês Peter Shaffer (de Amadeus) constrói um
dos mais instigantes e intensos textos do teatro moderno. Escrito em 1926 e levado às telas em
1977 por Sidney Lumet (com Richard Burton no papel agora vivido por Otávio Augusto, e que no
Brasil também já contou com a atuação de Paulo Autran), Equus é um drama psicológico
bombardeado por poderosas imagens da mitologia (cristã, principalmente) que entram em conflito
com o ideal rotineiro de normalidade que nos acostumamos a ter nos braços. Erguido sobre uma
base depois fartamente utilizada, ainda hoje a história do psiquiatra desiludido e do paciente
atormentado com a figura de um deus eqüino surpreende, choca e comove.
Trata-se, de um lado, da angústia de um personagem que, consciente da estagnação de sua própria
vida, vê-se obrigado a não apenas acompanhar a paixão (coisa que jamais teve a sorte de
experimentar) incontrolável que o outro leva às últimas conseqüências, mas também a diagnosticar
essa paixão como um mal a ser extirpado. E, pior, ser o responsável pela "cura" do outro. Casado
com uma mulher que há seis anos não lhe sente o toque dos lábios, Martin vive esse acúmulo de
dias nas costas seguindo uma normalidade que, de rotineira e insatisfatória, se tornou tão
questionável quanto a insanidade de seus pacientes.
Por outro lado, tem-se todo um universo interior que, criado sob o caos de uma mente perturbada
desde a infância, rompe enfim a barreira que o separava da realidade exterior. Filho de extremos
opostos (pai ateu marxista e mãe fanática religiosa), Alan teve uma educação falha, quase não
freqüentou escolas e suas leituras resumiam-se à Bíblia e a narrativas heróicas de cavaleiros.
Isso, mais as seguidas horas diante da TV (principal ligação com o mundo), resultariam na
formação de um imaginário muito particular, povoado por figuras divinas e caracterizado por uma
fixação em cavalos. Nestes, o porte, a musculatura e a capacidade de unir-se ao cavaleiro, em
corridas através de campos vastos, tanto se associariam a um ideal de liberdade e poder que Alan
os veria como objeto de idolatria, que a falta de informação e a chegada da adolescência iriam
misturar, de forma confusa e intensa, ao desejo sexual.
Sob a forma de bem inseridas recordações, durante o tratamento, a mente de Alan vai sendo aberta
ao público por Martin. E para ilustrá-la, o diretor Luiz Furlanetto realizou o feito de unir
economia, elegância e imaginação. Do mesmo cenário imitando uma cocheira faz-se tanto o
escritório de Martin quanto as demais localizações do texto, com as boas soluções narrativas
(como a ida ao cinema) culminando na original concepção dos "cavalos", que se tornam
convincentes por mais que sejam artificiais e enchem os olhos do espectador, quando surge
rompendo o ritmo sombrio e silencioso da trama. Espetáculo denso, intimista, Equus
impressiona pelo peso dramático beneficiado ainda pela trilha sonora assinada por Mauro
Perelmann, e pela iluminação de Wilson Ruiz. Furlanetto estabelece, assim, uma sólida base sobre
o qual coloca seus atores.
No elenco, Otávio Augusto oferece à platéia uma atuação irresistível. O Martin que ele compõe é
um homem desiludido e plenamente consciente disso. É esta lucidez que permite tiradas
inteligentes de auto-ironia, que o ator enriquece com uma humanidade comovente. Mesmo com todo o
cansaço e descrença, o psiquiatra de Otávio Augusto ainda consegue manter a capacidade de ficar
pasmo com o homem. Ao lado dele, o jovem Pedro Garcia Netto poderia facilmente desaparecer, mas
agarra-se com tanto sentimento a seu personagem que a entrega rende bons momentos. Deve-se
destacar ainda o trabalho de Leonardo Thierry e Amélia Bittencourt que, como os pais de Alan,
conseguem fugir da caricatura e mostrar personagens que, incapazes de se comunicar, terminam por
transformar o amor em opressão.
(M. L.)
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