Bowling for Columbine,
EUA, 2002.
Documentário.
Música: Música: JEFF GIBBS.
Fotografia: BRIAN DANITZ, MICHAEL McDONOUGH.
Montagem: KURT ENGFEHR.
Co-produção: KURT ENGFEHR.
Produção executiva: WOLFRAM TICHY.
Produção: CHARLES BISHOP, JIM CZARNECKI, MICHAEL DONOVAN,
KATHLEEN GLYNN.
Escrito, produzido e dirigido por MICHAEL MOORE.
Estréia no RJ: 16.05.2003.
Sinopse e comentário.
Em 20 de abril de 1999, na cidade de Denver, no estado
norte-americano do Colorado, dois adolescentes saíram de um jogo de boliche para, armados de
granadas e metralhadoras, promoverem um massacre na biblioteca do colégio Columbine, onde
estudavam. Partindo desse acontecimento, o diretor Michael Moore foi em busca não apenas das
razões que levaram os dois estudantes a cometer tal crime, mas de uma explicação para a enorme
freqüência com que esses crimes ocorrem nos Estados Unidos. Narrando sua infância no estado de
Michigan, lembra da felicidade sentida ao ganhar uma arma de brinquedo, e da vinculação à
Associação Nacional do Rifle, clube de defensores das armas que tem no ator Charlton Heston seu
maior divulgador. Pois dez dias após a tragédia em Columbine, Heston estava em Denver fazendo
palestras em defesa do uso de armas de fogo, como também estaria depois em outra cidade, logo
após outra tragédia, onde uma criança de seis anos levou uma arma para a escola e atirou em uma
colega de classe.
Com ou sem Charlton Heston, o que o provocador Moore pretende é mostrar o
quanto a sociedade do mais rico e poderoso país do planeta é paranóica, racista e violenta. Do
banco que é também um negociante autorizado de armas (dá um rifle a quem abre determinada conta,
e possui, segundo a funcionária, quinhentas armas de fogo em seu cofre) à violência comum entre
os estudantes; da paranóia pós-Columbine (onde até uma camisa com o símbolo punk da Anarquia foi
razão para levar uma estudante ao tribunal, e até um cortador de unha foi considerado arma) e
pós-11 de setembro; dos programas policiais estilo "mundo cão" (que o Brasil vem copiando
indiscriminadamente) ao surgimento de milícias armadas e aos mais diferentes boatos (ataque de
abelhas africanas, "bug" do milênio), tudo é motivo para que o cidadão norte-americano desconfie
de tudo e de todos, e atire primeiro para perguntar depois. Enquanto os grupos conservadores
apontam o rock (principalmente o cantor Marilyn Manson, entrevistado pelo diretor) e o cinema
como causas da violência entre os jovens, Moore vai além e cita o próprio governo
norte-americano como principal difusor dessa mentalidade belicista. É nesse instante que vê-se
na tela imagens de arquivo mostrando as diversas incursões militares em países cujos governos
os próprios EUA financiaram, para culminar, sob o som da voz de Louis Armstrong cantando "What
a Wonderful World", com o momento do avião atingindo a segunda torre do World Trade Center.
Tiros em Columbine é um manifesto cheio de perplexidade, cinismo
e afiada visão crítica. Da mesma forma que conversa com um dos autores do desenho animado
South Park, que estudou em Columbine e fala da pressão psicológica sofrida pelos alunos
e da permanente ameaça do fracasso incutida pelos pais, Moore entrevista donos de fábrica de
armamentos e editores de telejornais, que justificam sua programação com a ladainha "Ódio e
raiva vende, aprender a mudar não vende". O filme sugere, assim, um acordo não declarado entre a
mídia e a indústria bélica (não por acaso as duas que mais vendem em todo o mundo), as únicas
que parecem lucrar com o medo e a violência da sociedade. Também estabelece um parentesco entre
a Associação Nacional do Rifle à Klux Klux Klan, que teriam surgido no mesmo período e se
beneficiado de lei da época, que permitia a todo homem branco a posse de armas de fogo. O medo
é também uma das causas do racismo, demonstrado nos programas policiais e na própria fala de
Charlton Heston, que aponta como uma das causas da violência nos EUA a "sociedade mista" em que
vivem.
Mas o passado de violência, a cultura de "games", filmes e músicas
provocadoras, a desagregação familiar e a miséria, possíveis razões de tanto medo, não são
exclusividade dos norte-americanos. Muitos outros países sofrem do mesmo mal. A fim de comparar,
o diretor viaja até o Canadá e se surpreende com a tranqüilidade de seus habitantes e de suas
estatísticas; lá, nenhum dos entrevistados lembra quando houve o último assassinato, todos
dormem com as portas de casa destrancadas e a programação televisiva mostra políticos mais
preocupados com o bem estar social. Nessa hora não dá para não sentir uma forçada de barra do
diretor, impressão que se fortalece quando se procura conhecer mais sobre Michael Moore,
principalmente sob o ponto de vista de seus detratores.
Logo se descobre a existência de um sítio, em
http://www.revoketheoscar.com, exigindo a devolução do prêmio de melhor documentário da
Academia de Hollywood a este filme. Segundo o sítio, existe tanta manipulação da verdade em
Tiros em Columbine que este não deveria ser considerado um documentário, mas um filme
de ficção. Moore teria editado imagens e entrevistas, forjado números e criado acontecimentos
que jamais existiram. O próprio fato dos assassinos de Columbine terem jogado boliche antes do
massacre, que dá título ao filme, é questionado, pois segundo a polícia local eles sequer
entraram no boliche no dia. O rifle dado como brinde pela conta aberta num banco teria, na
verdade, sido comprado em loja numa cidade vizinha, e a seqüência da abertura da conta, montada
durante meses. Há toda uma série de erros, inverdades e manipulações que não serão enumeradas
aqui, mas que os interessados podem procurar no sítio de direita Mídia Sem Máscara, em
http://www.midiasemmascara.org. É
leitura recomendada para aqueles que não se satisfazem com informações vindas de uma só fonte,
e procuram conhecer mais de uma opinião / versão, mesmo que não venha a concordar com elas,
antes de construir a sua própria.
Nada disso tira, no entanto, o mérito de Tiros em Columbine. Todas as
questões que o filme aborda, paranóia, violência, racismo, existem e não se vê, na sociedade, o
mesmo interesse em questioná-las como há em combatê-las do modo mais fácil: com mais paranóia,
mais violência e mais racismo. Criticado por atacar um sistema mas receber milhões de dólares
do próprio sistema que ataca, Michael Moore pode até estar manipulando informações para gerar
mais medo. Mas pelo menos está tentando catucar a ferida e colocar tanto este assunto, como o
da própria manipulação da informação (seja pela direita ou pela esquerda) em pauta. Se utiliza
o discutível recurso de "os fins justificam os meios", isso nós, espectadores infelizes sem
outro acesso às informações além do que nos é fornecido pela mídia, não temos como confirmar.
Mas não há como não deixar a sala de exibição alheio ao que se viu na tela. Imagens fortes como
as registradas pelas câmeras da escola durante o massacre em Columbine, ou empolgantes como a
seqüência em que Moore, mais dois estudantes sobreviventes do massacre (paraplégicos por causa
das balas alojadas em seus corpos) vão a sede da rede de lojas K-Mart, que vende armas e
munição, "devolver a mercadoria".
(M.L.)
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