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A jovial expressão do monstro
Maurício Limeira

"Ele encherá de novo sua boca de sorrisos
e seus lábios com gritos de alegria."

Jó, 8:21



    Não cabia nem mais uma única alma viva em Copacabana na noite de 31 de dezembro de 2003. Nem uma alma pequena como a dele, acostumada a ocupar pouco espaço e educada para não dar trabalho nem incomodar a paz alheia.

    E paz era do que mais se falava em Copacabana, no Brasil, na Terra. Paz nos corações, nos campos de batalha, nos bancos, nos bolsões de pobreza. Sozinho, ele olhava e ouvia cada manifestação de esperança, cada voto de boas entradas, e a vontade era de sair correndo dali. Como poderia uma massa tão volumosa de carne humana, espremida numa praia que não comportava o conteúdo que era obrigada a receber em suas areias e aterros, ser sincera em seu pedido de paz? O tempo de tal pensamento foi insuficiente para chegar a qualquer conclusão: atropelado por um grupo que passara empurrando quem estivesse na frente, ele apenas viu de relance a jovem desmaiada nos braços de dois rapazes, e escutou os pedidos desencontrados por ambulância, por médico. A vítima entrara em coma alcoólico, e era certo que romperia o ano levando glicose na veia.

    Mas era noite de ano novo, e ele forçou os lábios a se abrirem num sorriso e ameaçou a si mesmo de morte, caso não tratasse de pôr na cabeça pensamentos positivos, animadores, que pudessem se unir à grande carga de energia luminosa que estaria se formando naquele instante, em todo o mundo. Uma criança de olhos arregalados para tudo, agarrada nos braços de uma mocinha que, embora parecesse sua irmã, era sua mãe, ao ver a expressão esquisita na cara dele, a boca rasgada e o olhar estrábico, pôs-se chorar de medo. Até a mãe assustou-se com a expressão quase demente.

    "O senhor quer fazer o favor de parar de assustar o meu neném?", ralhou a mãe, atraindo a atenção dos que estavam com ela.

    "O que houve, Valdirene?", perguntou um sujeito gordão que carregava uma garrafa de cidra como se fosse um porrete.

    "Esse senhor aí está fazendo careta para a Suelen Patrícia!", reclamou a Valdirene.

    No mesmo instante formou-se um círculo de homens parrudos ao redor dele.

    "Ô meu chapa, você não tem vergonha de ficar assustando criança não?", perguntou um deles.

    "Por que não vem assustar alguém do teu tamanho, rapá?", falou outro, bufando bem na frente dele.

    "Vamo apagar o cara logo!", disse um mais entusiasmado.

    "Eu não fiz nada!", ele tentou argumentar. "Eu só estava sorrindo! Só estava sorrindo!"

    "Que coisa horrível!", berrou a Valdirene, se benzendo e abraçando com força a Suelen Patrícia. "Que diabo de sorriso feio! Deus me perdôe! Tira esse cara daqui, Walter, tira!"

    "Tu não ouviu a minha senhora não, vagabundo?", gritou o Walter. "Rapa fora! Vai sorrir em outro lugar!"

    Ele saiu correndo por entre o mar de pessoas que trajando branco buscavam chamar para si os bons fluidos do ano entrante. E todas essas pessoas se espantavam à medida que percebiam a face dele, cada vez mais deformada devido às malfadadas tentativas de corrigir o deprimente sorriso. Por onde passava, ele ia espalhando o horror.

    A alma até então insignificante cristalizou-se de vergonha e medo. Ele fugiu da orla correndo para as entranhas de Copacabana, derrubado pela falta de fôlego na esquina das ruas Tonelero e Anita Garibaldi. Estava ajoelhado e sem ar quando foi surpreendido pela voz miúda de uma mulher que se aproximou devagar e relutante.

    "Olá? Tudo bem aí?"

    Ainda protegendo com as mãos o sorriso deformado, ele ergueu a cabeça para responder. E o que viu levou-o a esgarçar ainda mais o rosto até o limite da gargalhada, que conseguiu conter.

    Estava diante de uma cega, supremo clichê das histórias de monstro, o que só fazia confirmar o seu caráter monstruoso. Riu da falta de imaginação da entidade que ditava os rumos de sua vida, imaginando que faltava apenas os dois, ele e a cega, se apaixonarem e alguém surgir do nada para separá-los.

    "Olá", ele falou. "Feliz ano novo."

    "O senhor está passando bem?", ela perguntou, recolhendo a bengala dobrável. "Por que está de joelhos?"

    "Estou bem", ele levantou-se. "Está indo para a praia? Vai ver os fogos?"

    "Eu não vejo os fogos."

    "É verdade, você é cega, me desculpe."

    Ele reparou que ela parecia não controlar os músculos da face, que ora ameaçavam sorrir, ora apenas tremiam. Sentiu uma repentina, dolorosa e insensata identificação pela ceguinha.

    "Você está indo para casa? Quer que eu a leve?"

    "Não. Obrigada. Vou sozinha. Feliz ano novo."

    Ela desdobrou a bengala e afastou-se, tateando cuidadosa pela rua de infinitas saliências, reentrâncias e perigos que só esperavam a melhor oportunidade para feri-la. Ele não se moveu, admirando cada passo que ela dava e sentindo, pela primeira vez em sua vida, o coração pulsar impregnado de amor.

    "Espere!", ele correu até ela. "Por favor, espere!"

    Ela tentou acelerar o passo, mas antes disso ele já a alcançara e segurava-lhe o braço esquerdo com vigor. Não precisou ver o sorriso abominável que se formou no rosto dele para sentir medo, e de fato apavorou-se quando ele começou a falar, atropelando as frases cujo sentido às vezes se perdia, do amor que os reunira naquela noite abençoada. Falou de sua infeliz infância, de sua humilhante juventude, e jurou que qualquer vestígio de rancor para com a vida se desmanchara no ar feito água no asfalto quente de verão. Amava-a, ele ia dizendo. Amava-a, ele repetia, amava-a, amava-a, amava-a.

    Ela quis se desvencilhar das mãos entusiasmadas que a envolviam como uma rede de pesca. Na face dele, o sorriso que lhe desfigurava as formas terminou por extrair qualquer semelhança com um ser humano, e junto com a aparência também a sanidade se acabava naquele homem. Beijando a ceguinha à força ele foi deitando-a no chão, no meio da rua, e abrindo-lhe os botões de sua calça. Ela tentava espernear mas ele, inchado e fortalecido por um amor incontrolável que acabara de descobrir, imobilizava-a como a uma criança ao mesmo tempo em que abria o próprio zíper.

    Nessa hora uma viatura policial virou a esquina, na distância de uma quadra do local onde ele estava violando a ceguinha. Os oficiais dentro do carro provavelmente o teriam visto, não fosse a providencial gritaria vinda de todos os lugares, e o pipocar dos fogos de artifício anunciando a entrada do novo ano. Os relógios enfim marcavam a meia-noite. Naquele instante os dois homens da lei desceram da viatura, abraçando-se efusivamente conforme mandava o espírito cristão. Afinal, ninguém pensaria em cometer um crime naquela noite de festa.

    Quando ele terminou de servir-se de sua amada, muita gente já estava retornando da Avenida Atlântica. Saindo de cima dela ele arriou no chão, feliz como um príncipe. Ela, coitada, só conseguiu lamentar:

    "Ninguém merece."

    "Eu vou levá-la em casa", ele tentou animá-la. "Não te dou meu telefone porque você é cega. Não conseguiria me ligar. Senão eu dava. Juro."

    "Você pelo menos gozou fora?"

    "Claro", ele mentiu. "Você não percebeu?"

    "Não. Me ajuda a levantar."

    "A gente vai se ver de novo?"

    "Não, se eu tiver sorte."

    Ele desistiu de acompanhá-la quando percebeu que a rua deixava de ser vazia. Temeu que vissem seu rosto cada vez mais abstrato, e despediu-se com um beijo na testa da ceguinha.

    Na falta de uma catedral gótica em Copacabana, ele foi refugiar-se no interior do Túnel Velho, num dos vãos utilizados como moradia pela população de rua. De lá não saiu mais. Foi a partir daí que começaram os rumores de que o túnel era mal-assombrado, e de que uma criatura horripilante pulara os muros do Cemitério São João Batista, em Botafogo, para retornar ao local onde havia sido vítima de um atropelamento. Não faltou quem dissesse ter avistado uma figura semelhante a um homem, mas com uma face tão anormal que parecia carne em decomposição.

    Quanto à ceguinha, teve um filho saudável, forte, bonito e danado de inteligente. Só não é muito dado a sorrisos.







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