Maurício Limeira
Depois de atravessar a porta da loja e enfrentar a fila, largou toda a papelada no
balcão.
- Meu IPTU tá muito alto - ele disse ao funcionário. Minha vizinha mora numa casa igual
à minha, e o IPTU dela é 100 reais mais barato.
- E eu com isso?
- Como assim, "e eu com isso"? - ele gritou. A casa é igual, é igual! Eu não posso pagar
mais por uma casa que é...
- Calma, eu tava brincando. Não estressa. Que papelada é essa aí? Trouxe o atestado de
catalogação municipal da casa?
- Trouxe o quê?
- Atestado de Catalogação Municipal da Casa. ACMC. Trouxe ou não trouxe?
- Não trouxe.
- Então sinto muito, não posso fazer nada pelo senhor.
- O QUÊ???
- Brincadeira, brincadeira. Não estressa - o funcionário sentou diante do computador.
Quanto tá o IPTU do teu barraco?
- É uma casa. Veio 550 reais na cota única. Isso é um roubo.
- Roubo nada. Aqui ninguém rouba, meu filho. Peraí...
O funcionário deu uns petelecos no teclado do computador, depois levantou-se e sumiu
atrás de uma porta. Quando voltou, trazia nas mãos um papel.
- Pronto. Seu IPTU agora é 1500 reais.
- 1500??? FICOU MAIS CARO!!!
- Reclamou demais. Agora é 1700 paus.
- 1700???
- 1900. Alguém dá mais?
Nesse instante uma velha gorda na fila levantou a mão e ofereceu 2000.
- 2000 reais! - disse o funcionário. Vendida à velha gorda. Meus parabéns, minha
senhora, a senhora acaba de adquirir uma bela casa no bairro das Laranjeiras!
- Peraí! - ele gritou. Você vendeu a MINHA casa???
- Vendi. E por favor pode ir saindo da fila que o senhor está atrapalhando. Próximo!
Veio um baixinho de terno.
- O que o senhor deseja? - perguntou o funcionário.
- Eu queria um sanduíche de frango com rodelas de tomate no pão árabe.
- Pois não. E pra beber?
- Um suco de acerola.
- Mais alguma coisa?
- Um chiclete de canela.
- Canela não tem.
- Tem de hortelã?
- Hortelã tem.
* * *
Antes de enfiar na fechadura a chave de casa, ele ainda rodou todo o quarteirão várias vezes,
até criar coragem para contar à esposa a sua trágica jornada. Não apenas fracassara na redução
do IPTU, mas ainda deixara ambos, ele e ela, sem lar, sem teto, na rua da amargura. O peso da
derrota vergava cada osso de seu corpo quando ele entrou em casa e fechou a porta. A mulher o
esperava na sala e acabou surpreendendo-o, quando interrompeu a narrativa da desventurança antes
mesmo que ela começasse.
- Eu preciso te contar uma coisa - ela disse.
- Você não quer saber primeiro no que deu a história do IPTU?
- Isso é mais importante. Bem mais importante. Senta.
Ele obedeceu desconfiado, embora com a certeza de que nada na Terra seria mais importante
do que seu infortúnio. Ela caminhou em círculos pela sala, procurando em cada volta a palavra
certa para começar. Isso o enervou.
- Vai, conta.
- Está bem - ela respirou fundo. Estou ouvindo vozes.
Só podia ser gozação. Os dois despejados e ela resolvera ouvir vozes. Como não bastassem as
vozes que iriam ouvir quando se mudassem para debaixo da ponte.
- Que tipo de vozes? - ele perguntou, entre o alívio e o desinteresse.
- Menino, é uma coisa tão estraaaanha... - ela disse, os olhos alucinadamente arregalados.
Umas vozes de homem, dizendo cada coisa cabeluda pra mim...
- Coisa cabeluda? Que tipo de coisa cabeluda?
- Ah, você sabe... Você é homem... Essas coisas que homem diz pra mulher, tipo "gostosa",
ou "vou te pegar e te"... Ah, você sabe, eu não vou repetir não...
- Mas quem é que tá dizendo essas coisas pra você? Quem? Me diz agora que eu vou pegar o
cara!
- É isso o que eu estou te falando, seu tonto, são as vozes! Eu não sei quem é! Mas eu
escuto em todo lugar onde eu vou, na rua, no banheiro, em tudo quanto é lugar! Eu já fico até
com vergonha de trocar de roupa ou tomar banho, porque logo começam as vozes dizendo aquelas
coisas... Falando do meu bumbum...
- O seu bumbum??? O que é que as vozes falam do seu bumbum???
- Caramba, o que você acha que elas podem falar? Falam isso mesmo que você tá pensando! O
tempo todo! "Você tá precisando é de um disso"! "Vou fazer aquilo em você toda"! "Te deixar toda
daquele jeito"!
- Você tá ficando maluca? Que diabo de voz é essa?
- Eu não sei! Eu não sei! Eu não sei!
* * *
Acabou não contando para ela que a casa onde moravam pertencia agora a uma velha gorda.
Resolvera calar-se e solucionar, por conta própria, o problema. A coitadinha já estava nervosa
demais com as vozes clandestinas que invadiram-lhe a cabeça, e melhor não lhe trazer mais
preocupações. À noite, quando ele foi procurá-la na cama aliviou-se porque a estranha frieza,
quase tensão, com que ela o recebera nos últimos dias, pareceu ter cessado. Viu a esposa
revirar-se e gemer como nunca havia feito antes, e ao terminar dormiu não só com a consciência
do dever cumprido, mas também com a sensação de ter passado por uma das melhores noites de sua
vida. E isso era tudo de que necessitava, algumas horas de bom sono que desanuviassem a sua
cabeça, para que de manhã pudesse encontrar a forma de reaver o imóvel perdido.
O que ele não sabia, e não sabia porque ela não contara, é que as obscenas e perturbadoras
vozes masculinas não eram ameaça apenas à sanidade dela. Todo o casamento encontrava-se em
perigo desde que ela, num instante desses que a memória não guarda data (mas que modifica tudo
aquilo que venha sucedê-lo), passou a incomodar-se mais quando as vozes não falavam.
Surpreendeu-se estranhando o fato de que, estando sozinha em casa, curvara-se para pegar algo
no chão e a voz tarada não lhe veio por trás, sussurrando abusos e prometendo-lhe sevícias.
Pior: no leito, a conjunção carnal com o dedicado marido já não a satisfazia, se junto não
viessem as vozes ordinárias debochando do desempenho e do tamanho dele, e descrevendo, com as
minúcias mais imundas, aquilo de que ela de fato estava necessitando. Assim foi nas noites
anteriores daquela semana, em que, penetrada, tudo o que ela conseguiu foi procurar em vão
pelas vozes no silêncio do quarto, não ouvindo sequer a respiração ofegante do marido.
Naquela noite, no entanto, a voz retornara. Ousada como nunca, xingava-a e jurava-lhe as
mais baixas formas de sexo, desesperando-a com o receio de que também o marido pudesse ouvir a
voz rouca, agora não mais se limitando a sussurrar, mas quase urrando, gritando como se o
desejo pela posse estivesse a feri-la. E ela, a mulher, também gritou. No que o orgasmo surgiu
no horizonte ela apertou o marido com o que restava de forças e gritou como se a esfaqueassem.
A entrega furiosa esgotou-a por dentro e por fora, não permitindo-lhe sequer retribuir o beijo
carinhoso de boa noite do marido. Tudo o que conseguiu foi virar-se de lado ao verificar que
ele dormia e, com a voz insistente ainda a debochar em seus ouvidos, chorar.
* * *
A manhã seguinte ele passara quase toda em ligações para amigos e advogados que o ajudassem
a resolver o problema da casa. Um amigo conhecia um sujeito que poderia indicar-lhe um bom
advogado, filho de um militar da reserva que passara por problemas semelhantes. De posse do
número do telefone do militar, ele ligou e agendou uma reunião para aquela manhã mesmo. Estava
arrumando-se para sair quando ela entrou no quarto.
- Está tudo bem? - ele perguntou.
- Tudo bem. Vai sair?
- Vou. E as vozes? Pararam?
- Acho que sim. Vou tomar um banho, está muito quente.
- Certo. Qualquer coisa, estou no celular.
Ele atravessou a porta da casa confiante como se partisse para uma guerra. Dentro de casa,
a esposa do guerreiro livrou-se de toda a roupa e entrou no banheiro. Mas, antes que a porta
fechasse, algo entraria junto dela.
(Leia aqui a continuação dessa história)
Outras Tonitruâncias