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Fim de tarde
Maurício Limeira



    O motorista do táxi, que não parara de falar desde que recolhera o passageiro há 25 minutos, também não mudara de assunto. Falava da morte. E mesmo agora, quase chegando a seu destino, na Praça Nossa Senhora da Paz, não parecia interessado em encerrar o discurso.

    - O lugar mais seguro pra se viver é no cemitério - dizia. Vê lá, doutor, se vagabundo vai entrar em cemitério pra roubar coveiro. É ruim. O senhor sabe quantas vezes eu já senti cano de revólver encostado na cabeça, doutor, sabe? Quatro vezes! Quatro vezes! Já vi a morte de perto quatro vezes!

    - Aqui está bom, obrigado. Pode parar.

    - Quatro vezes!

    O passageiro pagou e desceu. Não chegou, no entanto, a dar dois passos e um enorme pastor-alemão avançou latindo para cima dele. O dono, um rapaz inchado que trazia o bicho preso na coleira, riu-se do pulo assustado do sujeito, que por pouco não caiu na calçada. "Ele não morde, está só brincando com o senhor". O sujeito afastou-se sem dizer nada. No lugar de um pedido de desculpas, estava sendo implicitamente taxado de burro e medroso. Sentiu um princípio de taquicardia, mas não quis parar e descansar. Não ali.

    Conseguiu chegar no edifício comercial da esquina sem que nenhum moleque viesse chamá-lo de tio e pedir dinheiro. Esperava o elevador atrás de uma dupla de homens, que falavam em voz alta dos atributos de uma colega de trabalho.

    - Hoje de manhã eu cheguei junto - dizia um deles. Chamei de novo pra fazer um programinha, tomar um chopinho, você sabe como é. Ela então veio com aquele papo de "Você não está vendo essa aliança aqui não?". Eu disse que era outro o anel que me interessava...

    O sujeito desceu no sexto andar, deixando para trás os detalhes da narrativa. Percorreu um corredor longo e silencioso até chegar à porta da sala 613, onde tocou a campainha. Foi atendido por uma jovenzinha com idade para ser sua filha.

    - O senhor espera uns minutinhos? - a menina perguntou com voz de criança. O doutor ainda está atendendo um cliente lá dentro. São só uns minutinhos.

    Ele havia chegado no horário, mas sentou-se e esperou.

    - E esse verão que não passa... - a jovenzinha tentou puxar conversa.

    - Passará - ele disse, sem deixar de folhear a revista colhida ao acaso sobre a mesinha no centro da sala. Quando vier o outono.

    - Eu de-tes-to calor - ela reclamou. Detesto. O senhor não tem noção!

    Havia coisa pior, ele pensou sem dizer. Como essas frases que viravam bordões e o povo repetia como um credo, muitas vezes sem saber - sem ter noção - do que significavam. Ele tirou os óculos embaçados e ainda estava limpando-os com um lenço, quando a porta da sala do doutor se abriu. E dela saiu o próprio, acompanhando um rapaz até a saída.

    - O senhor já pode entrar - anunciou, sorridente, a secretária.

    Entraram juntos, ele e o doutor. Conversaram amenidades, falaram de política, saúde, família. Até o doutor dizer "Vamos lá?". Então ele levantou-se e baixou as calças de tergal marrom e a cueca branca de algodão. Atrás dele, o outro vestiu as luvas de borracha.

    - E a mocinha com quem está saindo? - perguntou o médico, para descontrair. A de 23 anos.

    - Grávida - ele respondeu, após passar pelo pé a perna da calça sem precisar tirar o sapato. Veio me dizer que está grávida. Que eu vou ser pai.

    - É mesmo? - o médico agora lambuzava com gel o dedo superior da mão direita. Que beleza, na sua idade. Você deve estar radiante. O que disse a ela?

    - Mandei-a embora - ele agora dobrava a calça e a colocava sobre uma cadeira. Sou vasectomizado há nove anos, esqueceu?

    - Caramba. É mesmo. Pode deitar-se.

    - Eu sei.

    - E colocar um pé aqui, e outro aqui.

    - Também sei.

    Uma enfiada só, e uma mexida lá dentro. Demorou quase nada, e logo ele estava vestindo a calça novamente.

    - Está tudo ótimo - o doutor tirou as luvas e jogou-as no lixo. Nada errado. Quanto à menina, você fez a coisa certa. Nessa idade elas são todas umas vagabundinhas. A maioria é piranha. Eu dou graças a Deus de só ter tido filho homem. Você também, não é?

    - É. Até daqui a seis meses, doutor.

    O médico levou-o até a porta, enquanto a secretária avisava ao paciente seguinte que era a sua vez. Caminhava com algum desconforto.







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