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Taras, Fobias & Contas a Pagar (II)
Maurício Limeira

(Leia aqui a primeira parte desse texto.)



    A câmera ficou olhando a cara dele por alguns minutos, depois que ele tocou a campainha do porteiro eletrônico. Então saiu uma voz do aparelho.

    - Quer o quê?

    - Falar com o Capitão Werner. Ele está me esperando.

    - Seu nome.

    - José Lael.

    - Pode entrar.

    A porta metálica estalou destrancando-se e José Lael entrou no condomínio. Por todo lado havia câmeras, e guardas armados, e um canteiro com uma placa dizendo "Não pise. Campo minado". Da portaria, uns 50 metros à sua frente, o porteiro gritou e acenou, orientando o bloco onde ficava o apartamento do Capitão Werner.

    Repleto de ruas, esquinas e policiamento, o condomínio mais parecia um bairro particular. Até mendigo ele tinha. Sentado no chão à sombra de um abacateiro, um milionário falido implorava por uns trocados para pôr gasolina no seu carro importado. Ao ser abordado pelo inconveniente pedinte, José Lael por um momento sentiu vontade de pisotear, cuspir em cima e derramar sopa de repolho no milionário. Mas acabou tirando umas moedas do bolso e entregando ao sujeito, que sequer lhe agradeceu.

    Dentro do elevador, nova câmera filmava todos os seus movimentos, por menores que fossem. José Lael não sabia, mas, além de filmá-lo, a segurança também media sua pulsação através do crachá recebido na entrada, verificava a impressão digital deixada no botão do elevador e, por raio-x, buscava em seus bolsos a existência de alguma arma. Caso ele fosse considerado perigoso, uma trava automática interromperia o funcionamento do elevador, e imediatamente o oxigênio injetado pela ventilação seria substituído por gás tóxico, mais letal do que os usados pelos americanos para matar seus presos. Se José Lael soubesse disso tudo, jamais teria entrado naquele lugar. Teria preferido ficar sem a sua casa, que era a razão de estar ali.

    Quem atendeu a campainha no apartamento do Capitão foi a empregada.

    - Meu nome é José Lael, o Capitão Werner está me...

    - Não está. O Capitão Werner foi levar o cachorro pra passear.

    - O cachorro?

    - O Totó.

    - Totó?

    - É, o cachorro.

    Para sair do círculo vicioso que começava a tomar forma, José Lael perguntou logo onde o Capitão costumava passear com o Totó. No calçadão, foi a resposta. Sem pedir mais detalhes, ele agradeceu e saiu.

   
* * *


    Chamava-se Gláucia, a esposa de José Lael.

   Naquele mesmo instante em que o marido deixava o condomínio para ir ter com o Capitão Werner e Totó, Gláucia encharcava de lágrimas o travesseiro após sair do banho. Sofria duplamente. De um lado, apavorava-se com a possibilidade de estar enlouquecendo, atormentada pelas vozes que só ela ouvia, e, de outro, doía-se de remorso por aquilo que acabara de fazer sob o chuveiro, e que sua consciência apontava implacavelmente como adultério.

   A palavra agredia, mas para Gláucia não havia outra que definisse o que acabara de fazer. Estivera com outro homem. Estivera, sim. Ainda que o corpo dele, com todos os traços e cores da carne, não pudesse ser visto invadindo e apropriando-se libidinosamente do seu, ainda que fosse um desconhecido cuja própria existência pudesse ser contestada por qualquer profissional da área médica, Gláucia não tinha dúvidas de sua condição. Acabara de ser possuída por um estranho. Tinha nas narinas o cheiro dele, e de seu interior já sentia escorrer pelas pernas a confirmação da presença masculina.

   A sensação serviu-lhe de alerta. Já não eram só vozes. Se ainda não havia um corpo naquilo que a atormentava, sua formação parecia questão de tempo. Gláucia assustou-se, temeu pela própria sorte. Temeu o inconcebível, e temendo esboçou o desejo da redenção. Precisava salvar-se. Precisava reagir àquele que a seduzia sem que para isso lhe fosse dado o direito. Estimulada por tal pensamento, ela limpou do rosto as lágrimas e levantou-se da cama, disposta a buscar ajuda.

   Sabia exatamente a quem recorrer. Folheando a agenda, procurou o telefone da amiga Naomi, ex-colega dos tempos de cursinho pré-vestibular que há muito não via. Naomi desde a adolescência era dada a esoterismos, e não foi com surpresa que o círculo de amizades daquela época recebeu a notícia de que ela se profissionalizara. Naomi tornara-se astróloga, taróloga, numeróloga, fazia parte de uma congregação Wicca e era conselheira espiritual de vários artistas de televisão. Antes de tomar qualquer outra atitude, Gláucia entendeu que deveria pelo menos conversar com a amiga. Já havia encontrado o número do telefone na agenda, e estava digitando-o quando uma forte tonteira a fez oscilar, e um odor agora conhecido espalhou-se por toda a sala. Gláucia sentiu o corpo tremendo depois de desabar sentada no sofá, e só conseguiu murmurar, antes que as pernas com vontade própria se abrissem:

   - Por favor... Por favor... Agora não...

   
* * *


    O sujeito de aparência estrangeira, pele queimada de sol, bigodes e cabelos brancos e porte atlético apesar da idade, caminhava conversando com um enorme cachorro da raça Rotweiller, que o seguia fielmente.

   - Vamos, Totó! - dizia o sujeito. Acompanhe-me! À minha direita, Totó!

   Não podia ser outro o tal Capitão Werner, José Lael pensou, enquanto corria para alcançá-lo. Feitas as apresentações, o capitão ouviu atentamente a explicação do problema e então comentou, pesaroso:

   - Estão cada dia mais acintosos. Mais vis. Não está longe a hora em que, para lidar com o Estado e se fazer ouvir, vamos precisar pegar em armas. Mas eu vou ajudá-lo, meu amigo. O seu problema agora também é meu. Serei seu conselheiro jurídico neste caso, e em pouco tempo você terá de volta o seu imóvel.

   - Mas eu julguei que fôssemos tratar com seu filho, que é advogado, não era isso?

   - Desnecessário. O meu conhecimento é suficiente para este caso. Além do mais, você deve procurar evitar recorrer a este tipo de profissional. Os advogados são pilantras, meu jovem. Todos eles. Eu não livro a cara nem do meu filho. Mas vamos lá. Vá me passando as informações enquanto seguimos para a repartição.

   - O senhor não vai em casa deixar o cachorro?

   - O Totó? Claro que não, meu rapaz. Ele me segue aonde eu for.

   Enquanto José Lael contava para o Capitão Werner tudo aquilo que ocultara da esposa, os três marcharam (o termo mais próximo da realidade era esse mesmo) rumo ao local onde tudo tivera início. No caminho encontraram Maria Quitéria, octogenária senhora de quem o Capitão Werner era vizinho, que juntou-se à cruzada que se estava formando. Se, para José Lael, a razão para tanta gente junta (ele obviamente estava contabilizando Totó como gente) fosse uma incógnita, para o Capitão Werner era a união, mais valorosa em situações como aquela, que fazia a força.

   - Você não percebe - disse o Capitão, a voz tonitruando acima das buzinas, dos motores e dos ambulantes da civilização urbana. O que estamos prestes a fazer não é apenas uma ação judicial, meu caro. Não, não se iluda. O que resultar desta empreitada, a que nos dedicamos com bravura, servirá de exemplo para todos aqueles que virão depois de nós, e fará com que eles, os burocratas infames, pensem duas vezes antes de vilipendiar o patrimônio do cidadão. Não, meu caro, não nos encaminhamos apenas rumo ao enfrentamento de trâmites burocráticos. Nesse instante, estamos todos impreterivelmente nos dirigindo PARA A GUERRA. Não é, Maria Quitéria?

   Como não tivesse ouvido quase nada do eloqüente discurso, Maria Quitéria não respondeu.

   
* * *


    Quando a porta se abriu após Naomi tocar a campainha, foi uma descabelada e amarrotada Gláucia quem apareceu.

   - Menina, você está bem? - a astróloga-taróloga foi entrando, espantada com o estado da amiga. Vim correndo assim que peguei o seu recado!

   Em resposta, Naomi recebeu um abraço choroso e suplicante. Após sentarem-se no sofá da sala, Gláucia explicou todo o dilema que estava vivendo, desta vez sem ocultar nada. Falou daquilo que a princípio não passavam de vozes, e que a própria Gláucia achou que fosse algum sintoma de perturbação mental, até a última "visita", ali, naquele mesmo sofá onde as duas estavam. Tão convincente foi a expressão de espanto no rosto de Naomi, que seria impossível alguém dizer que ela na verdade estava achando aquilo tudo uma besteira. Mas Naomi era antes de tudo uma amiga, e foi como amiga que ela se comportou.

   - Me diz uma coisa - ela falava baixo, carinhosamente para acalmar a outra. Como anda o teu casamento? O José Lael tem te dado atenção? Ele é capricórnio, não é? Você sabe onde é que a lua dele está?

   - Não tem nada a ver com o José Lael, Naomi. O problema é comigo!

   - Em virgem, aposto que ele tem a lua em virgem. Você sabe a que horas ele nasceu? Não teria sido entre nove e onze da noite?

   - Naomi, escuta! - Gláucia apertava as duas mãos da amiga. O problema não é o José Lael! Olha! Respira fundo! Não está sentindo um cheiro diferente?

   Naomi obedeceu, e de fato havia na sala não apenas um cheiro diferente. O ar parecia carregado de alguma coisa que Naomi, por não ter na hora lembrado do termo "selvagem", definiu como "masculina". Ainda estava achando que tudo não passava de histeria da amiga, causada por carência sexual, mas em voz alta admitiu que existia mesmo uma coisa estranha.

   - Eu vou fazer o seguinte - Naomi enfim resolveu. Nessa sexta-feira o pessoal da congregação vai lá em casa. Eles vão toda sexta-feira. Nós vamos fazer um ritual de purificação, e eu vou pedir pra colocar o seu nome na oração. Que tal? Não é ótimo?

   - Mas só isso, Naomi? Eu esperava que você fosse trazer umas ervas, umas poções, que fizesse uma seção de descarrego e expulsasse essa assombração da minha casa!

   - Não é por aí, amiga - Naomi riu-se. Só fazem isso no cinema, em casas possuídas por espíritos. Aqui não tem nenhum objeto voando pela sala, nem você é uma criancinha a quem eu precise dizer "corra para a luuuuzzz...". Você pode ficar calma, Gláucia, e verá que tudo fica bem.

   - Mas...

   - Agora eu preciso ir. Aparece qualquer hora lá em casa. Eu te faço um chá de gromalésia que você vai adorar.

   - Mas...

   E sem estender-se nas despedidas Naomi saiu. Novamente sozinha dentro de casa, a pobre Gláucia não conseguia sequer se mexer, de tanto medo. Temia que o menor movimento despertasse de novo a fera obscura, tarada, que viria mais uma vez satisfazer em seu pobre corpo os seus instintos bestiais e animalescos. Ainda com todo o cuidado para evitar movimentos bruscos, Gláucia fez o sinal da cruz e ali permaneceu, quietinha.

   
* * *


    Quando José Lael, o Capitão Werner, Maria Quitéria e Totó entraram na repartição pública, o funcionário não reconheceu o rapaz que naquela mesma manhã havia perdido ali a própria casa. Mas o velho que o acompanhava lhe era familiar.

   - Capitão Werner! - exclamou o funcionário, rindo. O senhor de novo?

    - Só há uma maneira de vocês não me verem mais, seu pequeno pulha - disse o Capitão, passando à frente de José Lael. Ou deixando de roubar os pobres inocentes indefesos como este meu amigo aqui, ou me matando. Só assim! Não é, Maria Quitéria?

    O funcionário soltou uma gargalhada.

    - O senhor é um figuraça, Capitão Werner! Mas e aí? Veio solicitar revisão de processo adjacente à subtração de bens?

    - Isso mesmo, pode ir fornecendo para o meu amigo um desses formulários que você tem aí no balcão. Esse aí. Não, menino, esse outro! O verde!

    O funcionário entregou o formulário para José Lael enquanto ia dizendo as instruções para preenchimento.

    - Aqui o senhor coloca todos os seus dados. Nome, endereço, telefone, CIC, RG, certificado de reservista, carteira de trabalho, PIS, escolaridade, tipo sangüíneo, fator RH, time de futebol, signo, ascendente, quantas máquinas de lavar tem em casa, e quantas vezes assistiu "Xanadu".

    - Certo.

    - E aqui o senhor colocará qual a sua cor favorita. Ah, e deverá justificar a sua resposta.

    - Está bem.

    - Pilantras - bufou o Capitão. Todos pilantras.

    Encerrado o preenchimento, o funcionário, sem conseguir esconder o riso de deboche, levou o papel para uma outra sala e lá ficou durante uns bons quarenta minutos.

    - Ele deve estar discutindo com o superior dele - comentou José Lael, após olhar no relógio pela terceira vez.

    - Impossível - disse o Capitão Werner. Ele entrou no armário de vassouras. Deve estar sentado no chão fazendo palavras cruzadas para passar o tempo. Ou então dormiu.

    Quando enfim retornou, o funcionário trazia uma expressão pesarosa, que ficara ensaiando durante todo o tempo em que se fechara no armário de vassouras.

    - O seu processo não está mais conosco - informou. Foi para outra instância. O senhor deverá se dirigir para o 33° Tribunal de Causas Perdidas.

    - E o senhor poderia me fornecer o endereço desse tribunal?

    - Não fica no Rio - interrompeu o Capitão. O 33° fica em Macaé.

   
* * *


    Estava Gláucia há mais de uma hora imóvel, no sofá, rezando para não ser violada de novo e para que seu marido voltasse logo para casa. Nesse instante o telefone tocou, e ela, cuidadosamente, ainda evitando movimentos bruscos, atendeu.

    - Sim...?

    - Querida, sou eu!

    - José Lael, onde você está? Não resolveu ainda o problema do IPTU? Vem pra casa, amor!

    - Estou resolvendo, querida! Só liguei para dizer que vou precisar ir até Macaé!

    - Macaé?? Mas... Mas... O que você vai fazer em Macaé, José Lael...?

    - Depois eu te explico! Preciso desligar, estou aqui na rodoviária! Beijo!

    E desligou.

(Leia aqui a continuação dessa história)





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