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O encontro
Maurício Limeira
Começaram a trocar emails depois que ele tornou-se colaborador de uma página de
literatura na internet, publicando os contos que escrevia nas horas vagas e que todas as
editoras já haviam rejeitado por não haver disponibilidade no momento ou não se encaixarem em
suas linhas editoriais. No início ele limitava-se a agradecer os elogios entusiasmados que ela
fazia, sem dispensar maior atenção à solitária fã. Elogios não enchem barriga, costumava dizer a
si mesmo, já que não tinha amigos com quem falar sobre literatura. Uma vez puxara conversa com
uma colega na empresa, e quando falou no hábito salutar da leitura ela de imediato concordou e
disse que adorava ler.
"É mesmo?", ele surpreendeu-se. "Que beleza!"
"Claro! Eu a-do-ro Paulo Coelho! Você não tem noção!"
Ele até tentou prosseguir na conversa, afinal a mulher era jeitosa e havia tempo que ele
estava sozinho. Mas os anos nas costas impuseram, além da calvície e das dores na coluna, um
considerável aumento na intolerância dele (cuja rabugice, aliás, vinha desde o berço), e o
excesso de senso comum que encaroçava tudo o que ela dizia, como numa bunda cheia de brotoejas,
acabaram com o romance antes mesmo dele nascer. Ela terminaria casando-se com um fiscal do
imposto de renda, e ele está lá, em casa, ouvindo música francesa enquanto imagina e põe
no papel a vida das pessoas que vê passar da janela do apartamento térreo onde vive.
Agora surge essa desconhecida na internet jurando gostar de tudo o que ele escreve. Por
estar sozinho, a afirmação adquire peso maior, e logo ele está criando todas as fantasias a
respeito da tal fã. Não resiste, e termina escrevendo uma mensagem onde confessa uma grande
curiosidade de saber mais sobre ela. Que ela diga como é, o que faz, onde vive, do que gosta.
Mal clica no botão "enviar", e já está novamente verificando se há mensagens novas. Não sossega
enquanto a resposta não chega.
E quando chega a surpresa é tanta que o deixa de boca aberta. Atendendo a curiosidade
dele, ela não apenas disse como é fisicamente, mas enviou uma foto colorida, de corpo inteiro,
num baile de carnaval. Loura, alta, cintura fina, quadris largos, pernas espetaculares. Vestida
numa fantasia de pirata cujo tesouro é a única parte coberta pelo tecido. Como ouviu certa vez
na faculdade (e isso já vai mais de uma década), não é uma mulher. É um parque de diversões.
Ela ainda acrescentou na mensagem que hoje está um pouco diferente, sem o bronzeado, o
cabelo mais curto. Ele não quis saber. Descontrolado, respondeu elogiando-a de maravilhosa para
cima, com ou sem bronzeado, e perguntando se não poderiam se encontrar pessoalmente. Nem revisou
o que havia escrito, antes de enviar. Nem ligou para o fato de já serem duas da madrugada e ele
ainda estar diante do computador, quando precisa acordar cedo no dia seguinte. Que se dane
o trabalho. Que se dane tudo. Na tela do computador, o anúncio de mensagem nova causa mais
impacto do que noite de ano novo.
Marcam um encontro.
Um barzinho em Copacabana é o local combinado. Sozinho na mesa, ninguém desconfia que a
aparência tranqüila esconde um combate de proporções cinematográficas contra a ansiedade. A
espera faz com que enxergue em cada loura que passa a sua adorada fã. Sim, já se refere a ela
como adorada. Como sua. Já se vê passeando com ela por bibliotecas, museus e galerias de arte
juntos, as mãos dadas, e até sorri antecipando a inveja que irá estraçalhar todos os homens no
trabalho, e todas as mulheres, quando o virem com sua nova namorada. Está rindo sozinho no
momento em que a voz dela interrompe-lhe os devaneios.
"Oi... É você?"
Ele volta-se em direção à voz ainda embriagado pelo futuro que mentalmente estava
construindo, e a visão da fã, em pé à sua frente, tem o mesmo efeito de um desabamento.
"Posso sentar?"
"Claro", ele consegue não gaguejar. "Por favor..."
Ela se acomoda na cadeira que, heroicamente, suporta o seu peso.
"Eu disse que estava um pouco diferente..."
"Não é tanto assim", ele luta contra as mãos, que querem fazer o sinal da cruz. O garçom
que vem atendê-los lança-lhe um olhar de profunda comiseração.
"Eu atravessei uma fase meio ruim na minha vida", ela continua, após pedir um
refrigerante dietético. "Mas você certamente não vai querer ouvir."
"Vou sim", ele diz, esperando que a história dure até a hora da despedida. "Pode
contar."
E ela conta. Conta que foi casada por seis anos com um oficial da Polícia Militar que vivia
espancando-a. Conta que, ciumento, desconfiava de tudo, reclamava de suas roupas curtas, e
juntava à reclamação toda sorte de agressões físicas. Numa dessas ela foi até parar no hospital,
após ser atirada no chão e bater com a cabeça no rodapé. Levou cinco pontos. Foi entre uma surra
e outra que ela engravidou, e sua vida pareceu finalmente se endireitar. Ao saber da futura
paternidade, o policial transformou-se em um novo homem. De outra coisa não falava além do filho
prestes a chegar; que seria um menino, um macho, a ser batizado no Maracanã. Dava até gosto ver
a felicidade disputando espaço no rosto riscado pela cicatriz de uma facada. Coisa de se erguer
as mãos para o céu e agradecer.
Isso até a gravidez apresentar complicações, resultando num aborto. Ela conta que ele
ficou furioso, que humilhou-a dizendo que nem para ser mãe ela prestava, que passou uma semana
inteira espancando-a e chamando-a de imbecil. Quase matou a coitadinha. Depois disso a
abandonou. Foi então o período da depressão, da tentativa de suicídio, da internação numa
clínica. Ela conta que engordou quarenta quilos, mas que nos últimos meses já perdeu três.
"Meus parabéns", ele consegue dizer, depois de ser atropelado por tanta desgraça.
"Mas fala um pouco de você", ela diz. "Até agora só eu falei. Fale de seus textos."
"Não há muito a dizer", ele tenta argumentar. "Eles falam por si."
"Que nada, você deve levar uma vida interessantíssima, pra ter tanta inspiração e
escrever aquilo tudo."
"Não levo não."
"Leva sim! Aquele teu conto, dos macacos que fogem do circo e se tornam críticos de
cinema, aquilo aconteceu mesmo? Você se inspirou em quê para escrever?"
Ele tenta responder, mas antes disso ela já vem com outra pergunta.
"E aquele outro, que você conta que saiu de madrugada na rua depois de transar com uma
advogada casada, aí um disco voador te seqüestrou e você encontrou a Baby Consuelo lá dentro.
Vai dizer que isso tudo não aconteceu, que você tirou tudo isso da cabeça."
"Não, nada disso aconteceu."
"Não acredito, você está me enrolando! E os detalhes que você bota? Por que logo uma
advogada? Vai, diz! E por que a Baby Consuelo?"
"São sentimentos. Impressões. As situações criadas servem só para dar mais credibilidade ao
que se quer dizer. Não significa que realmente aconteceram. Fosse assim, e os escritores seriam
só viajantes, aventureiros, cientistas, e não funcionários assalariados que passam o dia numa
mesa esperando a hora de encerrar o expediente."
"Sabe que eu também escrevo?"
"Hem?"
"Eu escrevo... Poesias, crônicas... Não como você, claro. Eu queria que você visse e
comentasse, você faz isso para mim?"
"Desculpe. O pouco tempo livre que tenho é para escrever, ler, pesquisar."
"Ah, então é daí que você tira a inspiração para os seus textos! Você copia!"
Nesse instante, enquanto ela fala, a idéia para um conto começa a ser formulada em sua
cabeça: escritor fracassado encontra-se com fã idiota e, não agüentando o rosário de besteiras
que ela fala, saca de uma arma e a abate a tiros. Ele vai desenvolvendo a história mentalmente,
dentro do ônibus, no caminho para casa, após se despedir da fã. Ao entrar no apartamento, abre a
caixa de correspondência no computador e apaga, uma a uma, as mensagens na pasta com o nome
dela.
* * *
Seis meses se passam até que o mercado editorial seja sacudido por um novo fenômeno
literário. Ocupando há semanas o primeiro lugar na lista dos mais vendidos, o livro de uma
autora estreante narrando sua vida sofrida, primeiro nas mãos de um policial militar, depois
dentro de uma clínica psiquiátrica, e finalmente seu encontro com um escritor invejoso e cruel, já
está sendo traduzido para o inglês, francês, italiano e mais quinze idiomas. Sua autora é a mais
recente indicada para a Academia Brasileira de Letras, e a adaptação cinematográfica de seu
livro de estréia contará com um produtor norte-americano, que garantiu pelo menos duas
indicações ao Oscar.
Mas não pense o perspicaz leitor que ele, enfurnado em seu apartamentinho com seu
computador e suas músicas francesas, não ganhou nada desde aquele encontro, há exatamente um
semestre. Ganhou. Ganhou, sim. Ganhou uma bela gastrite.
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