Maurício Limeira
(Leia
aqui as partes anteriores desse texto.)
De acordo com a propaganda oficial, Macaé é uma cidade de 131.550 habitantes numa área
de 1.215 quilômetros quadrados, localizada no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, no
Brasil, a uma latitude de -22°37’08" e longitude de -41°78’69". Vem passando por um considerável
crescimento econômico desde o final da década de 1970, quando lá instalou-se a estatal
petrolífera Petrobrás, trazendo a reboque alguns punhados de empresas prestadoras de serviços
no setor do petróleo e, conseqüentemente, ampliando a oferta de trabalho até o município ser
considerado o quarto em qualidade de vida no Estado. Suas temperaturas variam entre 18° e 30°C,
e a cidade apresenta clima quente e úmido na maior parte do ano. Mas vamos ao que interessa.
Passava das onze da noite quando José Lael, Capitão Werner, Maria Quitéria e Totó
chegaram em Macaé. Àquela hora todos já haviam ido dormir, e na saída da rodoviária o único
movimento visto pelo grupo foi o de um vira-lata remexendo uns sacos plásticos largados na
esquina.
- Macaé é uma cidade que não pára! - bradou o Capitão Werner. Tem sempre um cachorro
comendo lixo na sarjeta! Não é, Maria Quitéria?
- Acho melhor ligar para a minha esposa - José Lael pegou o celular. Ela pode estar
preocupada.
Ficou com o ouvido colado no aparelho escutando os repetidos toques do outro lado da
linha. Vários toques. Quando a ligação caiu na caixa postal, ele desligou. Tentou de novo, e o
resultado foi o mesmo.
- Deve estar dormindo - comentou, desligando o aparelho. Ela tem andado com umas
perturbações... Ouvindo vozes... Estamos indo para um hotel?
- Nada de hotel - o Capitão falou enquanto marchava pela rua vazia. Vamos dar plantão
no 33° Tribunal. Assim que abrirem, a gente entra. Astúcia, meu caro, astúcia. Não se vence uma
guerra comendo pipoca.
Quando chegaram na entrada do 33° Tribunal de Causas Perdidas, trataram de aconchegar
Maria Quitéria num cantinho, para que ela descansasse. Totó ficou junto dela, deitado a seus
pés. José Lael e o Capitão sentaram-se no degrau de entrada.
- Será que ela está bem? - José Lael perguntou, olhando a velha que quase se estirava
no chão por cima do cachorro. Não disse uma palavra durante toda a viagem. Na verdade, eu ainda
não ouvi a voz dessa senhora desde que a conheci.
- Ela está bem - o Capitão respondeu. É uma grande mulher, essa Maria Quitéria.
Conheço-a há muito tempo. Você nem nascido era, e eu já conhecia Maria Quitéria. Devo, aliás,
confessar que a amei muito. Sim, meu rapaz, eu amei. Fui perdidamente apaixonado por ela, foi
ela quem tirou-me a virgindade. Meu corpo ainda era o corpo de uma criança, em torno de meu
pequenino pênis não havia sequer uma tímida penugem pubiana, quando ela de mim se aproximou e
me seduziu. Era apenas um menino, eu, um menino sem qualquer noção dos jogos amorosos praticados
pelos adultos. E ela veio e se aproveitou desse menino, a verdade é essa. Aproveitou-se de minha
juventude e de minha infância. Aproveitou-se. E eu gostei. Mas por que você está chorando, meu
jovem?
- Estou comovido - soluçou José Lael, enquanto limpava com a camisa os olhos
lacrimejantes.
* * *
Quando o telefone tocou na casa que um dia pertencera a José Lael, Gláucia não foi capaz
de atender. Estava impossibilitada. Forças maiores do que a sua a empurraram para o chão, e
levantaram-lhe o vestido até acima da cintura, deixando de fora tudo o que havia por baixo.
Quem visse a cena certamente ficaria surpreso com a mulher sozinha no chão, apoiada nas palmas
das mãos e nos joelhos e gritando sucessivos ais que não pareciam causados por nenhum tipo de
violência física.
- Olha só - disse o vizinho, na casa da frente, procurando ver alguma coisa da janela.
Começaram de novo. Tá ouvindo?
- Deixa de ser enxerido - falou a esposa. Sai dessa janela antes que alguém te veja.
- Eles não param. Daqui a pouco vou ligar para a polícia e reclamar do barulho.
- Tá, reclama mesmo. Mas antes vai lá e pergunta o que o José Lael está tomando pra ter
essa disposição toda.
- Ora, vai pra...
Se entrasse naquele instante na casa ao lado, o vizinho encontraria uma mulher
desfalecida, seminua, suada, amassada, e sozinha. Julgaria, o vizinho, tratar-se de algum
costume do casal ali residente, um costume movido pela pouca idade e pela libido à flor da pele.
Retornaria, discreto, da porta e para sua própria vida, ofuscado pela inveja e aparentemente
alheio às piadinhas da esposa. Sentaria-se no sofá forrado com plástico e fingiria ler o jornal
do dia anterior, sem no entanto conseguir concentrar-se na entrevista do parlamentar britânico
que anunciou seu casamento com um garoto de programa brasileiro de 20 anos de idade.
Levantaria-se ouvindo a reclamação da esposa por passar na frente da TV e iria até a cozinha de
horríveis azulejos verdes, para procurar na geladeira alguns dos cubinhos de doce de leite que
comprara no supermercado. Verificaria não haver mais nenhum cubinho de doce de leite, todos já
haviam sido comidos, e a melancolia o faria curvar-se até cair de joelhos no chão.
Ou ele poderia achar esquisito encontrar na casa ao lado a mulher desfalecida, seminua,
suada, amassada e sozinha. Perguntaria pelo marido, se estava tudo bem, e recebendo como
resposta apenas gemidos quase inaudíveis, chegaria perto com cuidado considerando que talvez
ela precisasse de alguma coisa. Ajudaria a pobre mulher a recompor-se, cobrindo-lhe as partes
expostas e tentando não sentir desejo em hora tão delicada. Chamaria em voz alta pelo marido,
que não responderia, e então ele a carregaria até o sofá procurando reanimá-la. Ela despertaria
assustada com o rosto de homem diante do seu, e teria um ataque histérico, esperneando e
gritando por socorro. Gritos que seriam ouvidos pela esposa do vizinho, que viria certamente
conferir o que estava acontecendo, e pela viatura policial que passava por ali naquele
instante. Gláucia seria levada a um hospital, tratada como louca, amarrada e levaria uma série
de eletro-choques. Ficaria alguns dias em estado catatônico, pálida e careca, e quando seu
marido viesse buscá-la não a reconheceria, preferindo deixá-la no hospital e casar de novo, com
a moça que trabalhava num quiosque vendendo telefones celulares, e que já o havia olhado de
maneira sugestiva.
Mas nada disso aconteceu. Saindo da janela, o vizinho voltou para o quarto e foi fazer
palavras cruzadas.
* * *
José Lael dormia como um bebê encostado no ombro do Capitão Werner, que permanecia em
estado de vigília. Sonhava estar dentro de um supermercado empurrando o carrinho de compras na seção de laticínios, e ao escolher uma caixinha de leite sentiu que cutucavam-lhe o ombro.
- A lactose não faz bem para a saúde. Você deveria comprar uma marca que não contivesse lactose.
Era o médico, escritor e conselheiro televisivo Dráuzio Varela. José Lael ainda tentou argumentar:
- Mas...
- Deixe essa caixinha aí - ordenou Dráuzio Varela.
- Sim, senhor - gaguejou José Lael, largando a caixinha.
- E volte já para casa - continuou o médico. A sua esposa está precisando de você.
Acordou com o Capitão Werner sacudindo-o. O Sol começava a aparecer nos buracos da cidade onde se via o horizonte.
- Levante, soldado. Precisamos ficar de prontidão. Além do que, você babou todo o meu ombro.
- Tive um sonho - José Lael espreguiçou-se demoradamente. Sonhei que o Dráuzio Varela não me deixava comprar leite e me mandava voltar para casa. Na hora que eu ia perguntar "Que casa?", o senhor me acordou. O que será que isso quer dizer?
- Quer dizer que você anda sonhando demais. Vamos, de pé. O homem que não está presente no nascer do dia, não tem como planejar o cair da noite.
- Isso não faz sentido.
- Claro que faz.
Quando as horas enfim passaram e as portas do 33° Tribunal das Causas Perdidas, lugar onde José Lael resolveria a questão de seu imóvel tomado, se abriram, o Capitão Werner era o primeiro da fila que já se formava. Atrás dele, criaturas de aparência sofrida e estado deplorável se amontoavam demonstrando todo o grau de desesperança que um ser humano é capaz de atingir. Fome, tristeza, miséria, havia de tudo naquela fila, mas ao camelô que passava vendendo balas, isqueiros, pêssegos em calda e vidrinhos de cianureto só interessavam os possíveis consumidores. E, pela aparência altiva, o consumidor mais provável era o velho bem vestido no início da fila.
- Uma bala, doutor?
- Nada de balas.
- Um isqueirinho, então. Vai um isqueirinho?
- E o que eu faria com um isqueirinho? Eu não fumo! Nunca fumei! Jamais fumarei!
- Eu tenho uns desentupidores de latrina da melhor qualidade, material vindo da Coréia, vai?
José Lael estava voltando do supermercado com a ração que comprara para Totó quando viu o tumulto na porta do 33°. Ao correr para lá, teve de segurar o Capitão Werner, que estava atracado com o camelô, que gritava por socorro.
- Capitão, Capitão! Acalme-se! O que aconteceu, Capitão?
- Esse cara é muito chato! - urrou o Capitão, enquanto batia com a cabeça do camelô no meio fio. É chato demais! É insuportável! Não há ser vivo que agüente tanta insistência! Eu preciso matá-lo!
- Não me mate! - implorou o camelô, entre um e outro ai. Eu tenho família! Eu tenho família!
- Cale-se!
Não tardou para a polícia aparecer e rebocar todo mundo. Na delegacia, o grupo foi recebido pelo inspetor Valtencir, que ao ver o Capitão Werner exclamou com ar desconsolado:
- Capitão Werner, o senhor de novo?
* * *
Com as pernas ainda bambas, Gláucia chegou até o banheiro. A cada passo dado, quando as coxas tocavam uma na outra, a esquisita sensação de ter sido aberta a acompanhava, e ela sentia-se tão vazia que até os pensamentos a evitavam. A noite anterior, longa e intensa, a deixara arrasada, quebrada, exausta, e ela precisaria de um bom tempo de repouso para se recuperar. Já não conseguia pensar em soluções, em ajuda. Não conseguia desesperar-se, queria apenas descanso. Precisava fazer o que não fizera durante a noite: dormir.
Verdade que ela lembrava de ter desmaiado em algum momento. Lembrava de mãos fortíssimas e invisíveis erguendo-a da cama, e lembrava de flutuar nos braços daquilo que a carregara como um bebê, até que seu quarto e o mundo em torno foram escurecendo e Gláucia enfim desfaleceu. Recuperara a consciência algumas vezes, quando foi capaz até de divisar o vulto daquilo que continuava violando-a, embora naquele instante nada do que lembrava pudesse ser garantido. Cansada demais até para a exatidão.
No canto do banheiro, pareceu ter visto um homem a observá-la.
Assustada, Gláucia virou-se rapidamente, mas não havia ninguém. No entanto, se desviasse o olhar e não encarasse diretamente aquilo que pensou ter visto, lá estava a imagem difusa de um homem a observando. Tentou forçar a vista para distingüir-lhe a fisionomia, e, como não conseguisse, tentou olhá-lo de frente. A imagem então desaparecia, como se jamais tivesse existido. Mas se Gláucia virasse o rosto e esperasse, aos poucos a figura masculina ia reaparecendo. E ali ficava, parado, o homem. Olhando-a. E sem nada vestir.
- Me deixe em paz! - Gláucia conseguiu gritar, correndo de volta para o quarto.
Precisava do José Lael, onde estava o José Lael que não voltava para casa? O que estava acontecendo? Começando a ser tomada pelos nervos ela pegou o telefone e ligou para o celular do marido.
- Alô - José Lael atendeu. Gláucia?
- Onde você está? - ela se esforçou para não chorar. Ainda está em Macaé? Por que não volta para casa?
- Eu estou na delegacia...
- O quê?
- Na delegacia. Houve um problema com o Capitão Werner e...
- Com quem?
- O Capitão! Estamos aqui eu, ele, Maria Quitéria e Totó. O camelô está no hospital, com traumatismo craniano!
- O quê?? Quem??? O quê???
- Preciso desligar, Gláucia! O Inspetor Valtencir quer colher o meu depoimento! Depois a gente se fala, beijo!
E desligou. De novo.
(Clique aqui para ver a continuação desse
texto)
Comente esse texto:
comentário (s) até agora.
Outras Tonitruâncias