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Taras, Fobias & Contas a Pagar (IV)
Maurício Limeira

(Leia aqui as partes anteriores desse texto.)



    No ambiente esfumaçado e sufocante da delegacia em Macaé, a asmática Maria Quitéria não teria resistido nem meia hora, tadinha. Engasgaria tal e qual um peixe fora do aquário. Um peixe velho e magro. Num aquário redondo, com fundo de pedrinhas azuis e um boneco de escafandrista soltando borbulhas por um tubo. Isso tudo o Capitão Werner ia pensando enquanto era interrogado pacientemente pelo Inspetor Valtencir.

    - O senhor dessa vez passou dos limites, Capitão - dizia o Inspetor. O senhor não está num quartel. O senhor está me ouvindo, Capitão Werner?

    - Hem? - o Capitão ainda pensava nas borbulhas do escafandrista no aquário. Ah, sim. Quartel.

    - Dessa vez não terei como ajudá-lo, Capitão - prosseguiu o Inspetor. O camelô que o senhor espancou tem as costas quentes, e o advogado dele quer a sua cabeça.

    - Advogados - cuspiu o Capitão. Estão sempre atrás da nossa cabeça. Não há um que preste. Nem meu filho.

    - A propósito, ele está aqui.

    - Quem?

    - O seu filho.

    - O meu filho?

    - Aqui.

    - É?

    - Sim.

    - Não quero vê-lo.

    Em outra sala, o advogado Benevides Werner conversava com José Lael, ficando a par de toda a situação que se construía. Inclusive do drama da casa perdida.

    - Eu vou lhe explicar o que acontece - falou o advogado. Se a sua casa tem um problema na rede elétrica, você não vai chamar uma doceira para fazer o conserto. Você chama um eletricista. Por mais que essa hipotética doceira entenda de resistência e amperagem, não é a praia dela. Não foi instruída para isso. Da mesma maneira, você não pode entregar um problema judicial a um militar reformado, por maior que seja o conhecimento que ele dispõe sobre o assunto. Você deve procurar um advogado. Agora que eu já estou aqui, podemos tratar dos meus honorários. Fico com 50% de tudo o que você ganhar no término da ação.

    - Ganhar? - José Lael se espantou. Eu não vou ganhar nada! Eu só vou reaver! Você vai ficar com 50% da minha casa??

    - E do que houver em seu interior. Seres humanos, inclusive.

   José Lael caiu sentado na cadeira, as mãos na cabeça, ao lado de Maria Quitéria, que cochilava. Pensou em atirar Totó, que naquele instante também dormia, em cima do advogado e ordenar que o estraçalhasse, mas tudo o que conseguiu foi agradecer a ajuda oferecida.

    - Mas e seu pai? - lembrou. Você não vai tirar o Capitão da cadeia?

    - Claro - respondeu o advogado. É só ele pagar os meus honorários.

   
* * *


    Após muito tempo Gláucia enfim conseguiu dormir. E apesar da figura masculina e nua que a observava de perto, não foi desta vez importunada. Quando acordou o corpo doía, e o cansaço que deveria ter recuado com o sono pesava ainda mais sobre seus ombros. Ficou na cama, os olhos abertos procurando indícios de um sonho que não houve, enquanto o silêncio do quarto ia absorvendo o ruído da rua. Depois de algum tempo tentou ligar para José Lael, mas desistiu ao trombar pela terceira vez com a caixa postal.

    Havia uma paz esquisitíssima no interior do quarto, o que fez com que Gláucia novamente duvidasse da veracidade dos últimos dias. Não era possível que as seguidas violações (que voltavam nítidas, coloridas e em alta resolução sempre que Gláucia fechava os olhos) só existissem na sua cabeça, mas, se era real o violador, onde estava ele naquele instante? Dormindo? Assombrações também se cansavam e tiravam um cochilo? Sentiu um tremor enquanto recordava a brutalidade a que ele a submetera, as mãos furiosas que tanto apertavam-lhe a cintura quanto deixavam-lhe no corpo a assinatura do dono (e nessa hora ela curvou-se para confirmar as marcas vermelhas das palmadas nas ancas). Num movimento instintivo, Gláucia cobriu com o lençol a pele ainda nua, sem a certeza de contra quem tentava protegê-la.

    Pudesse, e não sairia mais daquela cama. Esqueceria tudo o que de bom e de mau havia passado e se dedicaria, religiosamente, a acreditar que sua vida começava ali, naquele instante, e que do mundo não carecia nada além de seu quarto. Sensação de fadiga perfurada a cada momento pela lembrança do amante-algoz, cuja permanência em sua mente, mais do que em seu corpo, ela recusava admitir. Mas também ali ele conseguira entrar, e tão profunda foi a penetração que pouco restou para outros pensamentos, e aos poucos a mulher deu-se conta de que voltava para si mesma o ódio que teoricamente deveria sentir por ele. Escondeu a cabeça entre as mãos, como se assim pudesse tampar, esquecer, evitar o óbvio. Dali a pouco estaria sentindo saudades dele.

    Entrava sol através das persianas, e, à medida que o tempo passava sem nenhuma nova ocorrência, um sentimento de segurança foi devolvendo o ânimo e a coragem para enfrentar o dia. Ainda assim, Gláucia levantou-se mais morta do que viva e, cambaleando, olhou ressabiada ao redor para ver se a figura difusa que encontrara no banheiro não estava também no quarto. Pareceu-lhe que não. Tratando de vestir uma camisola ela saiu descalça do quarto e, como se não reconhecesse a própria casa, foi tateando pelas paredes até voltar ao banheiro, parando desconfiada na porta antes de entrar.

    - Alô? - ela murmurou, ingenuamente. Alô?

    Não havendo resposta, ela entrou vagarosa e atenta para qualquer presença estranha. Sentindo-se enfim sozinha, curvou-se sobre a pia e encheu de água o rosto exausto, deixando o alívio percorrer-lhe todo o sistema nervoso, todos os ossos, toda a pele. Não estivesse tão acabada, e Gláucia seria até capaz de sorrir.

    Foi então que ela ouviu de novo a voz.

    "E ela nem usa calcinha...", teria dito a coisa, o demônio, a alucinação despudorada que, sem sombra de dúvida, estava de pé a alguns metros atrás dela. Gláucia virou-se rapidamente, assustada, nem sentindo o choque de seu quadril com o mármore da pia, e tão terrível foi aquilo com que ela se deparou que mesmo o grito, que poderia trazer-lhe algum conforto e chamar a atenção de alguém na rua, ficou retido na garganta. À sua frente, lado a lado, havia não uma imagem masculina difusa a ameaçá-la, mas duas. Gláucia não conseguiu evitar que seus olhos descessem até as virilhas nuas e idênticas e encontrassem duas ereções apontadas como cães de caça em sua direção, só aguardando a ordem do dono-caçador para avançar. Sem esperar tal ordem, Gláucia precipitou-se em direção à porta e correu, com quantas pernas tinha, para fugir dali. Só conseguiu chegar até a sala. Os dois monstros, as duas ferozes bestas gêmeas que tanto urravam quanto proferiam abusos, não tiveram qualquer dificuldade em alcançá-la e, imobilizando-a sobre o tapete, ergueram a fina camisola e com os próprios corpos cobriram a mulher que havia por baixo.

   
* * *


    - E então? - perguntou José Lael ao Inspetor Valtencir, que acabava de voltar da cela do Capitão Werner.

    - Ele se recusa a ficar aqui - respondeu o policial, a face esburacada dando até pena de tanta exaustão. Exige ser transferido para uma prisão militar.

    - Inspetor Valtencir! - gritou um jovem policial que entrara correndo. Inspetor Valtencir! Há uma multidão de camelôs lá fora querendo linchar o preso!

    Mal o rapaz acabara de falar, uma pedrada espatifou a janela da delegacia.

    - Precisamos fazer alguma coisa! - gritou José Lael.

    - Pode deixar - disse prontamente o Inspetor. Vou ligar agora mesmo para o vidraceiro.

    - Acho que vou embora - disse o advogado. Estou sentindo um pouco de medo.

    - Vocês são loucos?? - gritou José Lael ensandecido. Não tem ninguém normal em Macaé??? Temos que salvar o Capitão Werner!!

    - Fique tranqüilo, rapaz - disse o Inspetor, enquanto procurava num caderninho o telefone do vidraceiro. É impossível alguém entrar aqui. Nossa porta é reforçada.

    - Inspetor Valtencir! - gritou de novo o jovem policial. A turba ensandecida está arrancando os tijolos da delegacia com as unhas! Se continuar assim, não dou nem quinze minutos para eles derrubarem o prédio todo!

    - Acho que vou sair pela porta dos fundos - disse o advogado, se afastando.

    - Vingança! - urrava a multidão lá fora. Sangue!

    - A chave! - José Lael estendeu a mão para o Inspetor. Me dê a chave da cela do Capitão!

    - Isso que eles estão gritando... - murmurou o Inspetor. É "sangue" ou "mustangue"?

    - Me dê a chave!!!

    - A porta dos fundos está bloqueada - informou o advogado, retornando.

    - A chave!!!

    - Tá bom, tá bom, toma! - o Inspetor entregou a chave a José Lael. Sujeito estressado. Pensa que só porque mora no Rio de Janeiro pode tratar assim os outros. Em Macaé as pessoas também possuem sentimentos, o senhor sabia disso? Aposto que não sabia! Mas nós temos sentimentos, sim! Também choramos, sofremos, sentimos amor e piedade e euforia como qualquer carioca! Nós somos seres humanos, entendeu? Seres humanos!!!

    - Inspetor Valtencir! - outra vez o jovem policial. O guarda Braguinha foi tentar conter a multidão e os camelôs o despedaçaram! Eu ainda consegui salvar esse pedaço da cabeça dele, olha só!

    - Maria Quitéria, acorde! - gritou José Lael, sacudindo Maria Quitéria. Precisamos sair daqui agora!!

    Enquanto o Inspetor Valtencir lamentava a falta de paz no mundo e o desrespeito dos cariocas para com seus irmãos macaeenses, José Lael, Maria Quitéria, Totó e o advogado correram para o interior da delegacia em busca da cela onde estava encarcerado o Capitão Werner. Todo o prédio tremia violentamente, sacudido em seus alicerces pela multidão sanguinária que agora atirava coquetéis molotov nas janelas.

    - Vocês viram? - perguntou o Capitão, orgulhoso, ao ver José Lael abrindo a porta da cela. A multidão me chama! Exige a minha liberdade! Vamos lá fora que eu quero agradecer ao povo revolucionário de Macaé por ter me libertado!

    - Eles não querem a sua liberdade, Capitão, querem linchá-lo! - disse José Lael, se esgoelando para poder ser ouvido no meio de tanto barulho. São todos amigos do camelô que o senhor mandou para o hospital! Estão derrubando o prédio para pegá-lo!

    - Pois eu vou até eles assim mesmo! - gritou o Capitão, após alguns segundos de surpresa. Ainda está para nascer a horda de bárbaros que me fará fugir! Eu não recuei diante da Guerra do Paraguai! Não recuei diante da Revolta da Vacina! Não recuarei agora! E o que você está fazendo aqui, seu bandido imprestável?

    - Olá, papai - falou o advogado.

    - Pense na Maria Quitéria, Capitão! - José Lael já quase não tinha mais voz de tanto berrar. O senhor tem de salvá-la! Pense na Maria Quitééééria!!!

    As palavras do desesperado José Lael atingiram em cheio o coração do velho militar. Com os olhos enternecidos, o Capitão Werner voltou a atenção para Maria Quitéria, que cochilava num canto da cela, e, visivelmente emocionado, decidiu-se.

    - Você tem razão, rapaz - disse, enfim, com a voz embargada de emoção. Precisamos salvá-la. Apesar de toda a bravura, de toda a força dessa mulher esplêndida, ela não resistiria ao combate contra a horda de assassinos maníacos e psicopatas. Vamos embora daqui imediatamente.

    - Posso ir também, papai? - perguntou o advogado, trêmulo.

    - Claro - respondeu papai. Você será necessário para quando a ração do Totó acabar.

    O grupo avançava por um corredor em busca de uma saída daquele pandemônio, quando, ao chegar numa sala, ficaram frente a frente com a multidão de camelôs.

    - Lá está ele! - alguém gritou. Vamos matá-lo!

    E partiram para cima deles.

(Continua na próxima edição)





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