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18.07.2004
Filme de baixo orçamento
Maurício Limeira
Para Rebecca
O começo do filme não é lá essas coisas. Uma cama desarrumada, imagens meio turvas numa
fotografia suja, câmera na mão balançando e às vezes saindo de foco. Daí a ação se desloca,
bruscamente, do quarto para o banheiro. É filme do tipo cru, realista (europeu moderninho, ou
independente americano), ou não mostrariam esse pau meio duro mijando.
Só diante do espelho é que você percebe, no rosto amassado de olhos abertos quase à
força, que o protagonista é você mesmo. Que o filme da sua vida recomeçou numa sessão mais ou
menos igual às anteriores. Que o roteiro para você escrito por um amador de muito mau gosto e
pouca inspiração ainda não terminou, e que a história do personagem principal continua,
indefinida como o desenho de uma teia de aranha, mas não tão bonita.
É filme realista, lembre-se. Manja o Dogma? O ator escova os dentes, gargareja, cospe.
Se coça, encolhe a barriga quando diante do espelho, se veste sem nenhum glamour. Nenhum
malabarismo de câmera, nenhum abuso da montagem. Trilha sonora? Só se for da orquestra de
buzinas e celulares que ele ouve dentro do ônibus, a caminho do trabalho. Hoje a ninfeta
lourinha que ele sempre deixa encabulada, quando admira insistentemente a pele branca em toda
sua extensão, da carinha de anjo até as perninhas de serpente, não veio. Num toque de
surrealismo do diretor, o trocador do ônibus é o Gerard Depardieu. Disse alguma coisa quando
você atravessou a roleta, mas você não entende francês. O crítico especializado dirá que esta
cena se trata de uma metáfora para a falta de comunicação humana. Para não criar confusão, você
concordará.
Dois pontos após o seu, e entra no ônibus a menina que trabalha numa loja de roupas
perto de onde você desce. A tiracolo, um amigo que pelo jeito é doido para levá-la para a cama.
Sentam-se na sua frente, e você pode ouvir trechos do diálogo dos dois. Quase não a escuta, a
menina fala muito baixo. Que lástima não haver som Dolby Stereo dentro dos ônibus. Pobre não tem
direito nem a isso. Mas os elogios dele, misturados a uma baba faminta de conquistador barato, à
canastrice de ator que não sabe quando usar a caricatura, denunciam: filminho de quinta, esse. A
essa altura, metade da platéia já abandonou a sala de projeção. Só devem ter permanecido aqueles
dois casais lá na última fileira. Que nem estão olhando para a tela, e cujos atos agora dariam
um filme bem mais interessante do que este. A última cena surge na frente dos olhos num quadro
desfocado e aleatório. Você desanima. As palavras deveriam correr de baixo pra cima mas não há
créditos. Você não teve escolha, nem sequer patrocinador.
Falando nisso, você chega ao edifício comercial onde bate ponto de segunda a sexta. Na
portaria depara-se, sem muita surpresa, com os porteiros maquiados com muito pó de arroz, ternos
elegantíssimos cheirando a nostalgia e uma improvável expressão corporal de atores de teatro,
realizando a árdua tarefa de colocar um rinoceronte dentro do elevador. Num canto, Marcello
Mastroianni a tudo assiste, orientando a operação e realizando mais uma vez o papel de alter-ego
de Federico Fellini.
- O senhor por favor se retire - ele ordena a você, em italiano com legendas em
português. Está tirando toda a poesia da cena.
Você obedece. Sai, não quer atrapalhar ninguém. Quer muito pouco, pra falar a verdade,
desse filme mal escrito, mal dirigido e mal interpretado no qual você exerce um papel
compulsório.
Quer apenas poder atravessar uma porta e sair em outro país. Um lugar onde as palavras
são fáceis e os desejos coincidem. Onde se dança como Fred Astaire, se ama como Humphrey Bogart
em Casablanca e se dispensa dublês como Jackie Chan. Onde se possa escalar o World Trade Center
carregando Jessica Lange nos ombros, se possa correr na praia ouvindo a música de Vangelis, onde
o horizonte seja fotografado por John Ford e a cidade de São Paulo por Ugo Giorgetti. Onde se
possa voar como num desenho de Walt Disney, e discutir relações como Woody Allen nunca vai
deixar de fazer.
Nessa hora a porta se abre à sua frente. Você a atravessa. Do outro lado, encontra o
quarto vazio de onde saiu, hoje de manhã. A mesma cama de casal, a estante com a TV e os livros,
o mesmo armário comprado na promoção, o mesmo ventilador de teto e a mesma mesa com o
computador. Resignado, você prepara-se para continuar vivendo o papel que lhe deram há 35 anos,
e está para realizar as tarefas de casa quando um homem uniformizado carregando uma lanterna
surge do nada para gentilmente abordá-lo.
- O senhor terá de sair - ele diz. Esse cinema funciona com sistema de sessões fechadas.
Apesar da surpresa, você até tenta sair de sua própria casa. De repente é isso mesmo.
Tudo não passa de cenário vagabundo em filme de baixo orçamento. De farsa. Olhando bem, você
percebe que até a gata siamesa que dorme na mesma cama que você é feita de borracha. Tudo
mentira. Ora, você pensa, mas e daí? Que se dane. De repente a calvície, a miopia e a ejaculação
precoce também são falsas. Mas no momento em que tenta mover-se em direção ao aviso luminoso que
diz "Saída", sua imagem congela e todo o seu corpo parece travar. Desesperado, você tenta em vão
mexer um músculo que seja quando a luz se acende e, na sala de exibição, os dois casais se
levantam para ir embora. Você grita por socorro mas o único som que existe apenas grita: Corta!
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