Eu me lembro do dia em que eles chegaram na minha casa, cuspiram na minha cara e, com
uma gargalhada obscena, ordenaram que eu não reclamasse. "Você tem liberdade", disseram,
"quer mais o quê?"
E eu, a cara mole da saliva daquela gente que vestia terno, usava perfume e melecava de
gel os cabelinhos curtos, não pude aproveitar a minha liberdade para esmurrar as suas faces
lindamente cínicas, as bocas finas elegantemente poliglotas, as retinas limpas refletindo
cinematograficamente a Torre Eiffel, refletindo a Sorbonne, refletindo Miami, São Paulo e
Maranhão. Eu nada era porque eu não tinha posses, eu não tinha leis, eu não tinha acessos e
tampouco mídia, eu não tinha público, não falava alto e nem concordava entusiasmado, não
conhecia ninguém e não tinha espaço.
Então eu abracei com toda a minha força a dor que eles me davam me tirando tudo, e
deixando apenas a tal da liberdade, essa farsa alegre como cachorro solto na praia, e que a cada
dia eu menos entendia. Pois foi essa dor a que me abracei, e tanto abracei que ainda fiz doer
mais do que esperavam eles, que se iam embora deixando as suas contas, os seus carnês, a sua
saliva na minha cara, os seus impostos e a liberdade embrulhada em papel celofane.
Desde esse dia eu nunca mais vi o sol.
Vez, ou outra, entra um raio e eu lembro que há um sol atrás do banco, atrás desse
escritório e desse computador, atrás desse ônibus que todo dia atrasa, e todo dia lota e onde a
baratinha vai andando até sumir na cabeleira da mulher que dorme. Há um sol atrás da arma e do
talão de cheques, e do policial achacando o filhinho de papai, e dessa ladeira que quando chove
vira rio, e dessa parede, e desse silêncio e esse vazio e esse nome que dizem ser o meu. É para
lá, para onde está o sol, que eu me mexo e teimo e me dirijo, como um inseto cego doido para
embebedar-se de luz quente.
Porque daqui eu não gosto, aqui faz frio, e é escuro, e úmido, e aqui periga deles
retornarem, ateando fogo no teu cobertor enquanto você dorme, como fizeram em junho de 2002 com
o mendigo que dormia na via Banco das Palmas, em Santana, São Paulo, capital, Brasil, América do
Sul, só para ver como é que arde um ser humano, como é que estala entre as chamas a pele que não
tem plano de saúde, como é que vira a carne pobre em cinza. Aqui, definitivamente,
indiscutivelmente, escandalosamente, não é bom, não é seguro.
Eu repito isso sempre, e todo mundo finge que concorda. O que é preciso dizer para que
ninguém finja coisa nenhuma?
Quanto mais meus olhos se abrem, menos desejo que o façam. Menos compreendo, menos
simpatizo. Mais confirmo que não sirvo. Vontade tanta de ir embora que lugar nenhum amansa meus
temores. Me sinto sozinho, muito sozinho. Procuro um canto onde me esconder, mas há sempre um
disque-denúncia revelando o meu paradeiro, e apontando a minha condição de homem livre, num
mundo livre, contemporâneo, egresso da democracia, imerso na cultura e no amor, na esperança e
na tecnologia. E eu sempre acredito, e volto, e aceito, e me ferro de novo. Que saco, eu sempre
me ferro de novo.
Dentro da minha prisão, sou o mais livre dos homens. Mas é fora dela que as algemas
apertam.