Principal
   Editorial
   Tonitruâncias
   O Cisco de Olho
   Cinema & TV
   Filmoteca
   Programação
   Teatro
   Poesia
   Quadrinhos
   Ciscando
   Livros do Cisco
   Grupo de Discussão
   Serviços
   Créditos
   E-mail
   Busca
 
 

   
 No Cisco Na Web   
Fornecido por FreeFind

    




Ontem, nem que seja esta noite
Maurício Limeira


    Não foi pulga, nem pernilongo. Não teve pesadelo, nem tiroteio no meio da rua, nem garrafa quebrada por pivete, nem bêbado gritando. Aquilo que o fez abrir o olho de madrugada e não conseguir mais fechar foi uma pergunta.

    Levantou-se da cama sem acordar a esposa, que ronronava.

    Depois de andar pra lá e pra cá dentro do apartamento, vestiu uma roupa e saiu. A cabeça perturbada por uma interrogação que se repetia como mar revolto e afogava-lhe o sossego. Não sentiu-se melhor nem com o ar impuro da rua na cara. A pergunta insistia, ecoando como pingo dágua em poço sem fundo.

    "Que fim levou o A-ha?", era o que queria saber. Que fim levara aquela banda dinamarquesa, ou norueguesa, não importava, que tanto sucesso fizera em sua juventude, e tantas marcas, algumas insensíveis à ação do tempo, deixara em sua memória? O que levara ao desaparecimento o grupo responsável por canções inesquecíveis como "Hunting High and Low" e tantas outras, que o menino que ele havia sido um dia usara como fundo musical de uma vida sem atrativos?

    Quisesse ou não, o A-ha fazia parte de seu passado. De sua memória. A ausência de uma resposta quanto ao paradeiro dessa banda era uma lacuna dolorosa, quase como algo que lhe fosse apagado, furtado, surrupiado, e só agora ele desse conta. Precisava saber. Andou perdido pelas ruas numa busca quase febril por qualquer coisa que lhe servisse de resposta, tropeçando a cada esquina em nomes, fatos que retornavam um atrás do outro, tudo por causa do A-ha.

    Acabou encontrando o Magalhães na rua. O amigo vinha andando cabisbaixo, olhar perdido como o que ele próprio deveria estar carregando naquele instante. Outra razão não poderia ser. Ele acenou, o amigo surpreso veio até ele. Cumprimentaram-se. E então, antes mesmo que algum dos dois perguntasse a razão do passeio noturno, ele se adiantou:

    "É o A-ha, não é, Magalhães? Você está assim por causa do A-ha."

    Era o A-ha. O Magalhães não conseguira dormir e saíra por aí, alma penada sem lar vagando pelos escombros da memória à cata de um sentido para sua vida. Começaram então a trocar lembranças, como garotos trocando figurinhas na saída do colégio.

    "A Yane, lembra da Yane? Tem uma música do A-ha que eu não posso ouvir que lembro da Yane."

    "A Yane? A menina mais gostosa da turma? Você comeu a Yane?"

    "Não mas ela vivia cantando aquela música que foi tema do 007, e tinha um monte de foto do A-ha colada no caderno."

    "O tema do 007! Lembra do tema do 007?"

    "Como era mesmo o nome da música?"

    "Eu sei lá, e o que me interessa? Você lembra daquela promoção de uma rádio pra ganhar o LP do A-ha? Tinha que chegar primeiro numa pracinha lá em Copacabana com o nome A-ha pintado na testa, você lembra? Eu tava lá."

    "E você ganhou?"

    "Não, quem chegou primeiro foi uma velhinha de 70 anos. Mas as adolescentes taradas que eram fãs do A-ha espancaram a velha e tomaram o lugar dela."

    "Putz, eu lembro disso! A velha era avó da Daniela. A Daniela não pôde ir porque tinha abortado, e estava no hospital Souza Aguiar. Por isso mandou a avó."

    "A Daniela abortou? Com 15 anos? Caramba, essa eu não sabia."

    "Xiiii, nem era pra te contar. Mas tem tanto tempo isso, que se dane."

    E assim foi. Conversaram, conversaram, até secar a fonte de onde tiraram tanto assunto. E, com a pergunta inicial permanecendo sem resposta, os dois, Magalhães e ele, continuaram cabisbaixos. Antes que amanhecesse concordaram em voltar para suas casas, era melhor. Aquela era só mais uma pergunta, entre as tantas que fazem do homem o único animal infeliz na natureza.

    "Vou passar no jornaleiro antes", ele falou. "Eu sempre compro o jornal às sextas-feiras."

    "Vou com você."

    E, numa dessas surpresas que o destino reserva até às almas penadas sem lar, foi no jornaleiro que os dois amigos encontraram a resposta às suas inquietações. Segundo o jornal, o A-ha estava de volta à ativa depois de anos, lançando disco novo e uma turnê mundial. Que incluía o Brasil. Se apresentariam no Rio de Janeiro, naquela mesma sexta-feira, numa casa de espetáculos na Barra da Tijuca. Quando ele chegou em casa, a mulher já havia acordado.

    "Onde você esteve?"

    "Vou ver o A-ha."

    "O quê?"

    "Vou ver o A-ha."

    "O QUÊ?"

    "O A-ha."

    Foi difícil explicar, mas ele explicou e ela entendeu. Não quis ir com ele, mas compreendeu a agonia do esposo, e rezou quando, na noite seguinte, ele saiu para encontrar o Magalhães e irem juntos ver o A-ha. A esposa rezou por iluminação, paz e fim dos tormentos do marido. E, generosamente, incluiu em sua prece também o nome do Magalhães.

    Na casa de espetáculos, os ingressos já haviam esgotado, e ele e o Magalhães tiveram que pagar mais caro, comprando com o cambista. Muita gente formando fila, o que o fez imaginar quantos naquela multidão não chegaram até ali movidos pelo mesmo dilema existencial. Não seria decerto o caso dos muitos adolescentes vestidos de preto, com tênis coloridos e cabelos esquisitos e coisinhas de metal enfiadas na carne do queixo e nas sobrancelhas. Mas talvez fosse o dos pais e mães que vinham acompanhando-os, sem esconder no rosto a expressão de quem procura na vida o ponto exato em que estaria o erro. Percorridas todas as intempéries que antecedem um espetáculo (inclusive o atraso de quarenta minutos), o show começou com muita gritaria da platéia. E lá estava o A-ha. Pareciam os mesmos, como se o tempo nunca houvesse passado e de repente a adolescência pudesse voltar e oferecer uma nova chance. Ele chegou até a olhar na multidão para ver se não encontrava a Yane por ali, mas nada. Ninguém na platéia lhe era familiar, então ele se deu conta que nem o A-ha lhe era familiar.

    A banda começou tocando uma série de canções do tal disco novo, que ele nem ninguém ali conhecia. Baladas enjoadas e sonolentas que silenciaram o público, fazendo com que o próprio vocalista Morten Harket tivesse que ser cutucado por seus colegas, pois estava cochilando ao microfone. Só os fãs radicais, amontoados abaixo do palco, cantarolavam e empunhavam uma faixa com o nome dos ídolos. Outro tipo de radicais também empunhou uma faixa, mas com diferente mensagem: "Vote Rosinha Governadora". Ele então entendeu que o tempo pregava-lhe uma peça, enganava-o com a ilusão de retorno e redenção. A impressão se confirmou quando o A-ha, enfim resolvendo-se a tocar uma canção conhecida, apresentou "Stay on This Road" em versão acústica. Ele e o Magalhães trocaram olhares cúmplices de decepção. Num dos camarotes, um grupo ostentava uma bandeira da República Dominicana.

    O show terminaria pouco depois. Alguns bagunceiros entoavam um coro de "A-há! U-hu! Ô Morten Harket vou comer seu c...!", enquanto um garotão reclamou junto ao Magalhães que a banda não tocou "Crying in the Rain". O Magalhães concordou, embora nem soubesse que música era essa. A multidão seguiu lenta e pesada como um elefante de barriga cheia rumo aos portões de saída. Ele não conseguia pensar em nada, além da perda de tempo, de dinheiro e de esperança que aquele show havia sido. Já dentro do ônibus lotado é que deu-lhe um estalo, e as indagações existenciais retornaram quando ele, voltando-se para o amigo, perguntou:

    "Mas... e o Duran Duran, hein?"




Outras Tonitruâncias



 
 
      

Mala direta

Digite seu e-mail:
   
 

Busca gratuita de empregos

Digite o cargo desejado:







  Criação e edição:
     Volta ao Topo

   Principal    Editorial    Tonitruâncias    O Cisco de Olho    Cinema & TV    Filmoteca    Programação    Teatro    Poesia    Quadrinhos    Ciscando    Livros do Cisco    Grupo de Discussão    Serviços    Créditos
   E-mail
   Busca
 
 

   
 No Cisco Na Web   
Fornecido por FreeFind




Melhor visualizado com o navegador Internet Explorer 5.0 ou superior,
com resolução de 800x600.



Vergonha na cara não é vírus.