Não foi pulga, nem pernilongo. Não teve pesadelo, nem tiroteio no meio da rua, nem
garrafa quebrada por pivete, nem bêbado gritando. Aquilo que o fez abrir o olho de madrugada e
não conseguir mais fechar foi uma pergunta.
Levantou-se da cama sem acordar a esposa, que ronronava.
Depois de andar pra lá e pra cá dentro do apartamento, vestiu uma roupa e saiu. A cabeça
perturbada por uma interrogação que se repetia como mar revolto e afogava-lhe o sossego. Não
sentiu-se melhor nem com o ar impuro da rua na cara. A pergunta insistia, ecoando como pingo
dágua em poço sem fundo.
"Que fim levou o A-ha?", era o que queria saber. Que fim levara aquela banda
dinamarquesa, ou norueguesa, não importava, que tanto sucesso fizera em sua juventude, e tantas
marcas, algumas insensíveis à ação do tempo, deixara em sua memória? O que levara ao
desaparecimento o grupo responsável por canções inesquecíveis como "Hunting High and Low" e
tantas outras, que o menino que ele havia sido um dia usara como fundo musical de uma vida sem
atrativos?
Quisesse ou não, o A-ha fazia parte de seu passado. De sua memória. A ausência de uma
resposta quanto ao paradeiro dessa banda era uma lacuna dolorosa, quase como algo que lhe fosse
apagado, furtado, surrupiado, e só agora ele desse conta. Precisava saber. Andou perdido pelas
ruas numa busca quase febril por qualquer coisa que lhe servisse de resposta, tropeçando a cada
esquina em nomes, fatos que retornavam um atrás do outro, tudo por causa do A-ha.
Acabou encontrando o Magalhães na rua. O amigo vinha andando cabisbaixo, olhar perdido
como o que ele próprio deveria estar carregando naquele instante. Outra razão não poderia ser.
Ele acenou, o amigo surpreso veio até ele. Cumprimentaram-se. E então, antes mesmo que algum dos
dois perguntasse a razão do passeio noturno, ele se adiantou:
"É o A-ha, não é, Magalhães? Você está assim por causa do A-ha."
Era o A-ha. O Magalhães não conseguira dormir e saíra por aí, alma penada sem lar
vagando pelos escombros da memória à cata de um sentido para sua vida. Começaram então a trocar
lembranças, como garotos trocando figurinhas na saída do colégio.
"A Yane, lembra da Yane? Tem uma música do A-ha que eu não posso ouvir que lembro da
Yane."
"A Yane? A menina mais gostosa da turma? Você comeu a Yane?"
"Não mas ela vivia cantando aquela música que foi tema do 007, e tinha um monte de foto
do A-ha colada no caderno."
"O tema do 007! Lembra do tema do 007?"
"Como era mesmo o nome da música?"
"Eu sei lá, e o que me interessa? Você lembra daquela promoção de uma rádio pra ganhar o LP do
A-ha? Tinha que chegar primeiro numa pracinha lá em Copacabana com o nome A-ha pintado na testa,
você lembra? Eu tava lá."
"E você ganhou?"
"Não, quem chegou primeiro foi uma velhinha de 70 anos. Mas as adolescentes taradas que eram fãs
do A-ha espancaram a velha e tomaram o lugar dela."
"Putz, eu lembro disso! A velha era avó da Daniela. A Daniela não pôde ir porque tinha abortado,
e estava no hospital Souza Aguiar. Por isso mandou a avó."
"A Daniela abortou? Com 15 anos? Caramba, essa eu não sabia."
"Xiiii, nem era pra te contar. Mas tem tanto tempo isso, que se dane."
E assim foi. Conversaram, conversaram, até secar a fonte de onde tiraram tanto assunto. E, com a
pergunta inicial permanecendo sem resposta, os dois, Magalhães e ele, continuaram cabisbaixos.
Antes que amanhecesse concordaram em voltar para suas casas, era melhor. Aquela era só mais uma
pergunta, entre as tantas que fazem do homem o único animal infeliz na natureza.
"Vou passar no jornaleiro antes", ele falou. "Eu sempre compro o jornal às sextas-feiras."
"Vou com você."
E, numa dessas surpresas que o destino reserva até às almas penadas sem lar, foi no jornaleiro
que os dois amigos encontraram a resposta às suas inquietações. Segundo o jornal, o A-ha estava
de volta à ativa depois de anos, lançando disco novo e uma turnê mundial. Que incluía o Brasil.
Se apresentariam no Rio de Janeiro, naquela mesma sexta-feira, numa casa de espetáculos na Barra
da Tijuca. Quando ele chegou em casa, a mulher já havia acordado.
"Onde você esteve?"
"Vou ver o A-ha."
"O quê?"
"Vou ver o A-ha."
"O QUÊ?"
"O A-ha."
Foi difícil explicar, mas ele explicou e ela entendeu. Não quis ir com ele, mas compreendeu a
agonia do esposo, e rezou quando, na noite seguinte, ele saiu para encontrar o Magalhães e irem
juntos ver o A-ha. A esposa rezou por iluminação, paz e fim dos tormentos do marido. E,
generosamente, incluiu em sua prece também o nome do Magalhães.
Na casa de espetáculos, os ingressos já haviam esgotado, e ele e o Magalhães tiveram que pagar
mais caro, comprando com o cambista. Muita gente formando fila, o que o fez imaginar quantos
naquela multidão não chegaram até ali movidos pelo mesmo dilema existencial. Não seria decerto o
caso dos muitos adolescentes vestidos de preto, com tênis coloridos e cabelos esquisitos e
coisinhas de metal enfiadas na carne do queixo e nas sobrancelhas. Mas talvez fosse o dos pais e
mães que vinham acompanhando-os, sem esconder no rosto a expressão de quem procura na vida o
ponto exato em que estaria o erro. Percorridas todas as intempéries que antecedem um espetáculo
(inclusive o atraso de quarenta minutos), o show começou com muita gritaria da platéia. E lá
estava o A-ha. Pareciam os mesmos, como se o tempo nunca houvesse passado e de repente a
adolescência pudesse voltar e oferecer uma nova chance. Ele chegou até a olhar na multidão para
ver se não encontrava a Yane por ali, mas nada. Ninguém na platéia lhe era familiar, então ele
se deu conta que nem o A-ha lhe era familiar.
A banda começou tocando uma série de canções do tal disco novo, que ele nem ninguém ali
conhecia. Baladas enjoadas e sonolentas que silenciaram o público, fazendo com que o próprio
vocalista Morten Harket tivesse que ser cutucado por seus colegas, pois estava cochilando ao
microfone. Só os fãs radicais, amontoados abaixo do palco, cantarolavam e empunhavam uma faixa
com o nome dos ídolos. Outro tipo de radicais também empunhou uma faixa, mas com diferente
mensagem: "Vote Rosinha Governadora". Ele então entendeu que o tempo pregava-lhe uma peça,
enganava-o com a ilusão de retorno e redenção. A impressão se confirmou quando o A-ha, enfim
resolvendo-se a tocar uma canção conhecida, apresentou "Stay on This Road" em versão acústica.
Ele e o Magalhães trocaram olhares cúmplices de decepção. Num dos camarotes, um grupo ostentava
uma bandeira da República Dominicana.
O show terminaria pouco depois. Alguns bagunceiros entoavam um coro de "A-há! U-hu! Ô Morten
Harket vou comer seu c...!", enquanto um garotão reclamou junto ao Magalhães que a banda não
tocou "Crying in the Rain". O Magalhães concordou, embora nem soubesse que música era essa. A
multidão seguiu lenta e pesada como um elefante de barriga cheia rumo aos portões de saída. Ele
não conseguia pensar em nada, além da perda de tempo, de dinheiro e de esperança que aquele show
havia sido. Já dentro do ônibus lotado é que deu-lhe um estalo, e as indagações existenciais
retornaram quando ele, voltando-se para o amigo, perguntou: