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Taras, Fobias & Contas a Pagar (V)
Maurício Limeira

(Leia aqui as partes anteriores desse texto.)



    Dizem que na raríssima conjunção entre os corpos - há quem não acredite nesse fenômeno -, tanto o organismo, quanto o raciocínio, os sentimentos e os desejos daqueles que protagonizam o jogo amoroso atingem, de maneira espetacular, um estágio de absoluta e inquestionável sincronia. Tão próximos se tornam os amantes que já se disse ser este o único caso onde a comunicação entre a espécie humana é possível. Mas esta afirmação é por demais controversa, e obviamente não será discutida nesse espaço.

    É a conjunção entre os corpos que nos interessa. O encontro, cujo estudo e acompanhamento dificilmente será bem sucedido se realizado de outro modo que não o empírico, é acontecimento que se resume em si mesmo, e independe de convivência, idade, orientação sexual ou estado civil. Mesmo desconhecidos podem experimentá-lo, se a sorte porventura lhes sorrir. Mesmo inimigos. Na seqüência em que se dá a conjunção, que pode tanto durar alguns minutos quanto prolongadas horas, quem sabe dias, a parte do ser que se relaciona com o mundo externo, bem como suas anteriores simpatias ou aversões, são apagadas como se jamais tivessem existido. Só existe a outra parte, e todo o conhecimento acumulado durante uma vida se converte no conhecimento do outro, que a essa altura também já se confunde com o eu.

    Assim, se por um desses acasos da vida acontecer de você cair numa feliz conjunção de corpos com alguém, tenha consciência de que tudo o que você sentir e quiser e fizer estará em total concordância com o que sentirá, quererá e fará o seu parceiro. Não haverá incompreensão, porque será apenas uma via, não duas, de pensamento. Não haverá obrigações porque numa confluência de desejos os dois lados querem o mesmo, não ocorrendo, desse modo, o conflito. Não haverá sofrimento, porque a dor, neste caso, seria de ambos e, na possibilidade de ela ocorrer, é porque ambos assim desejaram e consentiram, e em ambos existe a consciência dos limites até onde podem ir para não ferir o outro, que é também o eu.

    Foi o que aconteceu com Gláucia e suas assombrações libidinosas. Embora no princípio o par de criaturas idênticas parecesse submetê-la e brutalizá-la, todos ali, conscientes ou não disso, encontravam-se no centro de uma curiosa conjunção, e por mais que na superfície os olhos sugerissem um feroz conflito, nas profundezas o que ocorria era a unificação pura, completa e, quem sabe, definitiva. No término do longo ato sexual, Gláucia viu-se novamente em seu quarto, embora não lembrasse como chegara lá, e seu corpo estava envolto delicadamente pelos corpos dos dois homens com quem dividia a cama. Surpreendeu-se por não sentir medo, e surpresa maior proporcionou um deles quando tomou de sua face e a carimbou com um beijo, gesto que o outro logo imitou, na outra face. Ela então se acomodou no meio dos dois homens, fechou os olhos e, afagada pela paz e por um sentimento de realização, adormeceu sabendo que ambos cuidavam de seu sono.

   
* * *


    - Como o senhor conhecia essa passagem secreta? - perguntou José Lael ao Capitão Werner, enquanto saía de dentro de uma das lápides de um dos vários cemitérios de Macaé, após percorrerem um longo túnel desde a delegacia.

    - Esse túnel foi construído pelos guerrilheiros durante a revolução de 1964 - respondeu o Capitão, enquanto ajudava o grupo a sair. Jamais pensei que iria utilizar isso. Venha, Maria Quitéria.

   - Olha só a frase que o maluco botou na lápide - apontou o advogado, rindo enquanto lia em voz alta. "Fico te devendo".

   - Será que os camelôs furiosos e assassinos virão atrás de nós? - José Lael perguntou.

   - Improvável - respondeu o Capitão. Mesmo que encontrem a entrada do túnel, se perderiam no meio de tantas galerias. Foi um trabalho muito bem feito, tenho de reconhe...

   - O que houve? - perguntou José Lael, ao ver o Capitão pôr a mão sobre o próprio ombro e fazer uma expressão de dor. O senhor se machucou?

   - Não se preocupe, meu caro - o Capitão sorriu, agradecido. É um pequeno problema que tenho no ombro. Uma bobagem. Coisa de velho.

   - Bursite?

   - Não tão velho. É resultado de minhas operações militares quando servi, com os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, na Itália, e tomamos Monte Castelo.

    Vendo que o assunto parecia fascinar seu interlocutor, o Capitão Werner prosseguiu:

    - Estávamos todos rodeando o monte, em cujo cume havia instalada uma sórdida base alemã. Éramos todos brasileiros. O clima gelado nos cobria com um manto da mais pesada apreensão, mas também fazia de nós os mais determinados dos homens. Estávamos num pelotão formado por mim, João Saldanha, Oscar Niemeyer, Mario Lago, Barbosa Lima Sobrinho e Paulo Autran. Nossa tática, planejada pelos oficiais americanos após meses de pesquisa e observação, consistia num ataque frontal e terrestre, apoiado em nossa mira e nossa capacidade de desviar das balas. Passava das doze horas daquele dia fatídico quando enfim recebemos a ordem de nossos superiores - o famoso grito "Vai!" -, e investimos correndo e gritando pra cima da base, sob o fogo da artilharia nazista.

    Nesse momento o Capitão emitiu um suspiro de pesar.

    - Vi muitos amigos queridos sucumbindo ao meu lado, enquanto corríamos, aos berros, para cima da base. Muitos. Homens bons, justos, essenciais, cuja presença encheu a nossa vida da mais profunda honra. Por muito pouco não fui um deles, pois a bala contra mim disparada errou a cabeça que era seu objetivo e atingiu-me apenas o ombro. Naquele dia, mesmo ferido, corri com todas as pernas que tinha para cima dos alemães e, mesmo com um único braço, enfrentei um deles. Foi uma luta feroz. Vendo meu estado, o tratante só quis saber de bater em meu ombro, em cima do ferimento. Por sorte descuidou de meu outro braço, e pude assim enfiar a mão por dentro de seu ouvido e arrancar-lhe um pedaço do cérebro. Enquanto o alemão caía em convulsões, eu pude partir para cima de outro.

    Nesse ponto da narrativa o advogado começou a vomitar, enojado com o cérebro arrancado pelo ouvido. Sem dar-lhe atenção, o Capitão prosseguiu.

    - Vencida a batalha, improvisamos na própria base alemã uma enfermaria, onde cuidamos dos feridos, dentre os quais eu estava incluído. Fui tratado por uma enfermeira maravilhosa, Altamira, da qual jamais esquecerei. À noite, enquanto todos dormiam, Altamira e eu nos amávamos loucamente sob os lençóis manchados de sangue, obrigados a omitir todos os sons que os amantes produzem nessas horas, mas sem perder nada da lascívia e da ardência que podem existir entre um homem e uma mulher.

    - Papai, o que é lascívia? - quis saber o advogado, sem obter nenhuma resposta.

    - Altamira era insaciável - continuou o Capitão. Mordia-me o ombro ferido arrancando os pontos que ela havia acabado de fazer, para depois costurar-me novamente. Amou-me até me esgotar, até extrair de mim o último traço de consciência, de existência. Nenhum homem pode dizer que é realmente um homem sem ter passado uma noite com Altamira no alto do Monte Castelo após enfrentar um pelotão nazista.

    - Puxa... - comentou José Lael. Caramba...

    - Eu ainda não acabei. Na volta para o Brasil, fomos recebidos pelo Presidente Getúlio Vargas, que, junto com todo o seu ministério, nos cumprimentou e parabenizou com tapinhas no ombro. No meu caso, foram quarenta e nove tapas no ombro que tive de levar do presidente, de seus ministros, secretários e quem mais estava no Palácio do Catete na ocasião. Por isso, meu jovem, não me venha perguntar se o que tenho no ombro é bursite. Definitivamente, eu não tenho bursite, você compreendeu?

    - Sim, senhor, Capitão - gaguejou José Lael, impressionado. O senhor me desculpe.

    - Agora vamos aproveitar e voltar ao cartório. Ainda temos o problema da sua casa para resolver.

   
* * *


    Naquele que parecia um instante construído fora da realidade, não havia necessidade que o corpo reclamasse, nem carência manifesta pelo espírito. Tudo era chão, e paz, e alma saciada. Depois talvez viesse uma angústia de saber que acabara de passar, e talvez jamais se repetisse, o momento de maior intensidade de toda a vida. Mas isso seria depois. Para Gláucia, era caso tão somente de entregar-se à mansidão daquelas horas. Estava novamente sozinha em sua cama, e ainda que sentisse a falta das duas partes que agora a completavam, não sofria. Estava de um jeito que podia até o mundo se acabar, que não a importunava.

   Mas importunou-se com o toque da campainha, pior do que o fim do mundo. Levantando-se e caminhando devagar - as pernas ainda bambas -, Gláucia foi até a porta e só então deu-se conta de ainda estar nua. Enquanto retornava ao quarto gritou, para a campainha que insistia:

   - Já vai! Espera!

   Vestiu-se lançando um último olhar para a cama desarrumada, e então saiu do quarto. Ainda experimentava os restos do estado de graça quando abriu a porta, recebeu a correspondência das mãos de um entregador e assinou o recebimento. E só depois de esparramar-se no sofá da sala e achar a própria casa o paraíso dos paraísos, abriu o envelope com carimbo do Tribunal de Justiça. As primeiras palavras do texto da carta, lidas sem atenção, soaram incompreensíveis e ela não ligou. Não deu a mínima para a burocracia do Estado, e já ia amassar o papel quando a expressão "ação de despejo" surgiu-lhe diante dos olhos.

   "Despejo?", repetiu em voz alta, como se fosse estrangeira a palavra pronunciada. "Despejo?", repetiu de novo, agora como se fosse uma ofensa. Releu a carta. Segundo o documento, os moradores daquele domicílio tinham vinte e quatro horas para deixar o imóvel, sob pena de terem todos os seus pertences removidos, atirados na rua e pisoteados por um elefante. Um adendo informava que o referido paquiderme estaria em sua idade adulta e bem alimentado, de acordo com as normas da Secretaria do Meio Ambiente publicadas no Diário Oficial.

   Gláucia levou as mãos à boca, ainda sem entender. Depois de tantas horas de satisfação e gozo, carecia que alguém explicasse que realidade insana era aquela em que agora acordava. Correu tonta para o telefone enfim lembrando que havia um marido a quem recorrer, mas na hora de digitar os oito números do celular de José Lael atrapalhou-se. Só conseguia lembrar que começava com nove.

   
* * *


    Diante do 33° Tribunal de Causas Perdidas estendia-se uma fila tão estapafúrdia que seu final o olho humano, nu, não alcançava. E justamente nesse local inatingível pela vista do homem estavam José Lael, o Capitão Werner, Maria Quitéria, Totó e o advogado. Sob o escaldante sol de Macaé, os quatro ficaram pastando no asfalto enquanto as horas iam se estagnando pesarosas sobre suas cabeças. Totó, o imenso Rotweiller (chegava quase aos sessenta quilos) do Capitão, babava com abundância no pé de Maria Quitéria, que em vão o enxotava. O pobre animal se afeiçoara à boa senhora, e a seus pés retornava para continuar babando.

   - Estou com sede - falou o advogado. Acho que vou comprar um iogurte.

   - Iogurte? - José Lael se espantou. Por que você não compra água?

   - Eu não bebo água - o advogado respondeu. Só tomo iogurte.

   Diante da expressão de surpresa de José Lael, o advogado prosseguiu:

   - Também não como feijão, nem bife de fígado. E não consigo dormir de luz apagada. Você me acha muito excêntrico?

   - Acho você meio escroto - José Lael encerrou a questão. Capitão Werner, o senhor acha que conseguirei reaver a minha casa?

   - Conseguirá - falou o Capitão, austero. A casa de um homem é a sua sabedoria, é a sua solidão, é a sua resistência. Pode-se tirar de um homem um braço, uma perna, um pâncreas, e ele continuará sendo um homem. Mas tire a casa desse homem, e ele se tornará coisa.

   Nesse instante o celular de José Lael começou a tocar.

   - Alô - ele atendeu. Gláucia, é você? Oi, amor, estou aqui, na fila do cartório. Ainda em Macaé. Deu um problema danado, essa história do IPTU. Você não faz idéia. Hein? Fala devagar, amor. O que houve? Hein? O quê? Um elefante? Que história é essa de elefante? Hein? Fala devagar! Despejo??? Você tem certeza de que está escrito "despejo"??? Espera, fica calma! Eu sei, eu sei! Eu fui! Sim, fui! Eu fui, Gláucia! Me escuta! Eu... Peraí! Deixa eu falar! Deixa eu falar!

   A desencontrada conversa durou uns dez minutos diante dos olhos aturdidos, preocupados e estarrecidos dos demais. Quando desligou o telefone, José Lael suava frio e gaguejava:

   - Fui despejado! Fui despejado! Capitão Werner, eu fui despejado! O senhor precisa me ajudar!

   - Calma, meu rapaz - disse o Capitão. Fique calmo...

   - Eu estou desesperado!!!

   - Fique tranqüilo que tudo se resolverá. Eu lhe garanto. Espere só para sermos atendidos, e você verá que não há intempérie sem uma solução a despontar no horizonte. Não é, Maria Quitéria?

   - É sim - falou o advogado.

   - Eu não me dirigi a você - rosnou o Capitão.

   Duas horas depois José Lael era atendido no guichê de imóveis perdidos por um funcionário de óculos escuros, longa costeleta, vários cordões de ouro pendurados no pescoço, camisa aberta mostrando o peito cabeludo e braço entupido de pulseiras de ouro, mesmo material da pulseira do relógio no pulso.

   - Ô meu querido - disse o funcionário, gargalhando entre uma e outra baforada do charuto que trazia à boca. E aí? O que o traz a esse recinto?

   - Quero reaver a minha casa - disse José Lael. Fui reclamar do valor do IPTU, e minha casa acabou sendo vendida para uma senhora gorda.

   - E quando foi que aconteceu essa desgraça, meu querido? - o funcionário continuava gargalhando, enquanto entupia a sala com a fumaça do charuto. Conta aqui pro teu parceiro!

   - Há dois dias. Fazem exatos dois dias que perdi minha casa.

   - Dois dias exatos? - perguntou o funcionário. Xiiiiiii, então só lamento. O prazo para recurso é de quarenta e sete horas. O teu expirou. Melhor procurar outro barraco, porque esse tu já perdeu. Aí, perdeu. Deu mole.

   Diante da trágica informação, José Lael ficou olhando para o funcionário, esperando que o mesmo dissesse que estava só brincando. Ao dar-se conta de que era sério, caiu em prantos no ombro do Capitão.

(Leia aqui o final dessa história)





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