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Espectador
Maurício Limeira



    O café com gosto de cigarro. Quase dando para fumar o caldo escuro que saiu da cafeteira fria.

    - Sim - ele resmungou, olhando para você. Essa é mais uma dessas histórias sobre personagens decadentes. Você pode ir embora, se quiser. Ou pode ficar e esperar para ver o que o destino me reservou.

    Se esparramou na cadeira, na mão o copo com o resto de café, antes de dizer:

    - A decisão é sua.

    Respirava fundo como se a exaustão fosse parte do figurino precário que estava usando. Como se fosse um adereço confeccionado por uma pessoa triste. Ele terminou o café com uma careta, limpou a boca barbuda, coçou o nariz. Olhou ao redor, para ver se alguma coisa mudou em sua vida nesses últimos minutos.

    - Ainda está aí? - ele riu, olhando para você. Sabia que a curiosidade matou o coelho?

    Coçou a parte da cabeça onde os cabelos ainda nasciam.

    - É o gato - corrigiu-se. Foi o gato que a curiosidade matou. A curiosidade matou o gato. O coelho ainda vive.

    Olhou de novo ao redor. Toda a pinta de bêbado, mas sóbrio. Sóbrio como um padre.

    - Coitado do gato - murmurou.

    Pôs sobre a mesa as duas mãos cheias de manchas, e ficou olhando elas tremerem sozinhas. O olhar relaxava, então ele ficou olhando, olhando, sem mover mais nenhum músculo do corpo.

    Foi nessa hora que bateram à porta. Batida mansa, desinteressada. Batida de porteiro velho só esperando os meses que faltam para a aposentadoria. Na mesa ele até se mexeu, mas de susto. Nem olhar para a porta ele olhou. Quando soaram novas batidas, tão descansadas quanto as primeiras, ele olhou para você e piscou.

    - Nem adianta - sorriu maroto. Não vou abrir.

    Como que recebendo a mesma informação, a pessoa do lado de fora bateu mais uma vez com igual resignação, e então desistiu. Daqui de dentro podia-se ouvir os passos no corredor, depois a grade do elevador velho sendo aberta, e então o estalar e o ranger das máquinas em funcionamento. Quem mora em último andar é assim.

    Ele permaneceu disposto a não fazer nada. Lá dentro, uma vontade infantil de rir que ele segurou, mas que poria para fora se olhasse para você. Por isso permaneceu de vistas baixas, admirando as duas mãos sobre a mesa.

    Fungou.

    Coçou as costas, quando o comichão ficou insuportável.

    Cantarolou, sem abrir a boca, um samba do Zeca Pagodinho.

    E então deu-se o estrondo.

    O impacto, violento, continuado, sacudiu não só o apartamento dele, mas o prédio, a rua, o centro da cidade inteiro. Tudo tremeu, como se tudo fosse frágil e pudesse cair como um sopro. E podia.

    Dessa vez ele se mexeu. Correu até a janela da sala, e chegou a tempo de ver o prédio da Prefeitura vindo abaixo, numa explosão que levantou imensa nuvem de poeira, como se um céu cinzento descesse à paisagem da sua janela após tropeçar em alguma imperfeição do espaço. A forma gorda, redonda, veio engolindo todas as construções da vizinhança rapidamente, sendo que em seu caminho destruidor estava o prédio dele, o próximo a ser tragado junto com as formiguinhas lá embaixo que eram gente correndo e que já sumiram, sufocados a essa altura pela poeirada. "Será que chega aqui em cima?", ele pensou, achando melhor não esperar para ver.

    Correu para a porta ouvindo o ronco do mundo lá fora, que abafava a gritaria agoniada das pessoas. Mal ouviu a própria voz quando se virou para você e perguntou:

    - Você vem também ou vai ficar aí?

    Achou melhor não pegar o elevador, e correu escada abaixo trombando com outros moradores que se atropelavam em busca de uma saída. Atrás dele, você ainda vê quando ele se choca com a massa humana movida pelo mais completo caos e não resiste, caindo no chão e desaparecendo debaixo dos tantos pés que o amassam no chão.

    Você não espera para ver. Consegue equilibrar-se junto à multidão e chegar a tempo às ruas, tendo a felicidade do resgate por policiais, bombeiros e soldados que vieram em socorro das vítimas. Nada sofreu, além do susto e de alguma irritação na garganta, nas narinas e nos olhos. Longe dali e em segurança, você enfim consegue saber o que aconteceu.

    - Foi um atentado - a enfermeira que atende você fala rápido, move-se apressada porque tem mais gente para tratar. O crime organizado explodiu a Prefeitura. O poder paralelo. Estão dizendo que o mandante disso tudo está preso em Bangu-1, e comandou a explosão de dentro do presídio, através do telefone celular. Não é brinquedo, não.

    Todos falam ao mesmo tempo. Tudo acontece ao mesmo tempo. Depois de se refazer do susto, algumas partes do corpo ainda doloridas da confusão, do corre-corre, você vira-se para olhar o edifício distante, onde há menos de uma hora você estava. Procura pensar alguma coisa, com o perdão do trocadilho, edificante, mas nada lhe vem à cabeça. Qualquer coisa que diga agora será piegas, cafona e óbvio. Caberá melhor na boca de uma dessas apresentadoras de televisão, do que na sua. Você então ajeita a roupa amarrotada, estende o braço e chama o primeiro táxi para voltar para casa.


Ilustração: Rice Araújo
ricearaujo@bol.com.br
http://sites.uol.com.br/ricearaujo/








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