Maurício Limeira
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O mundo mal começara a desabar para Gláucia, quando as primeiras pancadas surdas
fizeram todo o bairro tremer. A vizinhança assustada correu para as ruas gritando terremoto,
embora não se tratasse de nenhum desastre natural aquilo que balançava carros, árvores e o que
mais se equilibrasse sobre o chão, com impactos cada vez mais intensos. Só quando o colossal
elefante cinza surgiu na esquina, trazendo no dorso um funcionário do Tribunal de Justiça, é que
Gláucia entendeu o que estava acontecendo.
Estava chegando a hora de ser despejada, era o que parecia dizer cada trovão provocado
pelas patas do elefante. Um ciclista assustado acabou largando a bicicleta no caminho, e de
longe testemunhou seu meio transporte e lazer ser esmigalhado pelo bicho. Desengonçado e
espaçoso, o elefante derrubaria ainda um telefone público e uma banca de jornais, até chegar
diante da casa de Gláucia.
- A senhora é o senhor José Lael? - perguntou o oficial da Justiça.
- Sou a mulher dele!
- A senhora está despejada - continuou o oficial, sem descer do elefante. Faça o favor
de retirar todos os seus pertences do imóvel para que a Lurian possa passar por cima deles.
Como que confirmando o que acabara de ouvir, Lurian tratou de raspar as patas
dianteiras no chão, levantando uma imensa nuvem de poeira. Valente como leoa diante da cria,
Gláucia postou-se na frente de sua casa e disse que dali não saía. Em resposta, a elefanta
atirou-a longe com um safanão da tromba e começou a depredação, sob os olhares da multidão de
vizinhos revoltados com tanta arbitrariedade.
- Estão reclamando de quê? - gritou o oficial de Justiça. Vocês por acaso estão com o
IPTU em dia? E o aluguel? E a conta de telefone? Quem aqui vai me dizer que não tem nenhuma
dívida, que está inteiramente livre da inadimplência? Quem? Onde estão as pessoas íntegras
dessa terra, as que não tem o nome sujo em lugar nenhum? Me mostrem uma! Me mostrem uma, que eu
juro que vou embora daqui com a Lurian! Uma só!
No mesmo instante, os vizinhos foram aos poucos trocando os gritos de protesto por
resmungos. E depois saindo de fininho para suas casas. Em poucos minutos, não havia mais
ninguém por perto além de Gláucia.
* * *
Enquanto o Capitão Werner gritava com o funcionário do Cartório em Macaé, José Lael
tentava desesperadamente ligar para a esposa. Sempre a voz da gravação dizia que o aparelho
estava fora da área de cobertura ou desligado, o que era cascata da grossa. Naquele instante o
celular de Gláucia estava era esmigalhado no asfalto como uma barata atropelada. Não servia nem
como clipe de papel. Mas o desafortunado marido não sabia disso, e continuava insistindo em
tentar a comunicação.
- Os prazos não podem expirar sem a atenuação dos deveres locatícios!- bradava o
Capitão Werner, com o dedo na cara do funcionário, que só fazia rir. É prerrogativa do Estado
dirimir sobre questões relativas a prazos de forma que o contribuinte não seja punido por crime
que não cometeu! Você sabe muito bem disso, pilantra!
- Calma, meu querido! - gargalhava o funcionário, tentando pôr a mão gorda no ombro do
Capitão, que a enxotava com um tapa. Olha só, eu vou te dar um bizú: o negócio é não esquentar.
Deixa pra lá, casa tem aos montes por aí. Mais uma, menos uma, que diferença vai fazer?
Diante de tanta cafajestada, o Capitão Werner não estava se agüentando de fúria,
indignação, impotência e nojo. As veias no pescoço pareciam prestes a explodir a qualquer
momento, e era impossível olhar a pele vermelhíssima de seu rosto sem imaginar que por aqueles
poros logo estaria jorrando sangue. Foi nesse instante que, de tanto ódio, o velho Capitão quis
falar e não conseguiu. Ficou engasgado. Algo poderoso, que não cabia dentro de seu organismo,
parecia entupir-lhe as cordas vocais, e o único som que saía de sua boca era um "gaaa...
gaaaa..." que ninguém entendia. O funcionário, enquanto isso, ria de se acabar.
Eis que entra no local o advogado, que estivera todo o tempo do lado de fora do
cartório tentando desfazer um nó cego no cadarço do sapato. Esbaforido e assustado, correu o
rapaz até o Capitão, seu pai, e falou:
- Ei, papai, tá vindo uma multidão aí que me parece familiar. Se eu fosse o senhor,
dava uma olhada.
- Multidão? - perguntou José Lael, ainda tentando ligar para a esposa. Será que são os
camelôs assassinos?
Correram todos, José Lael, o Capitão engasgado, Maria Quitéria, Totó e o advogado,
para a porta do cartório, e o que viram fez com que suas faces se esgarçassem de horror. Eram
os camelôs assassinos, sim. Conseguiram sair de dentro das galerias subterrâneas e vinham
correndo, alucinados e animalescos, em direção ao cartório, espumando de raiva e urrando por
vingança, atropelando quem por azar lhes surgisse à frente, destruindo carros, lojas, postes,
vida. Verdadeira massa mortal se estendendo monstruosa pelas ruas de Macaé, sem nada capaz de
contê-la.
- É agora que a porca torce o rabo - o Capitão Werner enfim conseguiu falar.
- E agora? - José Lael arrancava os cabelos e pulava na entrada do cartório. E agora?
Meu Deus, e agora?
- Não sei quanto a vocês - falou o advogado. Mas eu vou me mandar daqui.
E saiu correndo. O gesto, a princípio covarde e desprezível, acabou revelando-se a
única opção viável naquele momento excepcional, e seria seguido pelos demais, que correram na
mesma direção que o advogado, com a multidão sanguinária vindo logo depois. A apocalíptica fuga
percorreu desordenadamente as ruas de Macaé, cuja geografia urbana era desconhecida pelo grupo,
virou esquinas, cortou avenidas e foi parar em plena praia, diante do Oceano Atlântico.
- Estamos cercados - gaguejou José Lael. Não temos mais para onde ir. Vamos morrer
todos.
- Essa é mais uma bela encrenca em que você me meteu - reclamou o Capitão Werner para o
advogado, que chorava como uma criança.
Nesse instante a multidão psicopata saiu do asfalto e tomou a faixa de areia, incansável
em seu apetite por sangue e devastação. Àquela distância já se podia ver as faíscas que
escapuliam dos olhares de vendedores de produtos eletrônicos chineses, de lápis com silicone,
de ioiôs de borracha, de cosméticos, de óculos de grau, de CDs piratas, de roupas de marca.
Alguns metros à frente, o Capitão Werner pôs as duas mãos nos ombros de José Lael e comunicou,
solene:
- Meu rapaz, você já me conhece o bastante para saber que eu jamais me entregarei ao
inimigo.
- Capitão, não faça isso! - José Lael já não conseguia conter as lágrimas. O senhor não
pode enfrentar tanta gente! Vão destrinchar o senhor todo em pedacinhos minúsculos!
- Eu não vou enfrentá-los, não diga besteira - o Capitão falava rápido, antes que a
turba ensandecida chegasse. Vou fugir pelo oceano, nadando. Mas você não deve vir comigo, meu
jovem. É a mim que eles querem. Volte para sua esposa, que ela deve estar precisando muito de
você agora. Me perdoe por não ter podido ajudá-lo, mas creia que esta guerra ainda não está
perdida. Tenha confiança e lute sempre por seus direitos. Não permita jamais que a ganância, a
mesquinhez e a corrupção humana o façam desviar de seu rumo. Seja feliz.
E dizendo estas derradeiras e comoventes palavras, o Capitão Werner saiu correndo para
o mar. Maria Quitéria, Totó e o advogado o seguiram, e a imagem dos quatro se atirando nas
ondas foi a última visão que José Lael teve de seus amigos, antes que a horda de camelôs cruéis
e sanguinários fosse atrás deles. Logo a praia estava completamente tomada de gente, um
pandemônio se instalara e assim seria até que a polícia aparecesse para botar ordem no lugar.
José Lael ainda ficou algum tempo por ali, zanzando para ver se encontrava alguém, mas não
havia gente conhecida naquelas areias. Acabou esbarrando com o Inspetor Valtencir.
- Ora, vejam - bradou o policial. Se não é o rapaz do Rio de Janeiro... Veio passear na
nossa praia? Eu sabia. O povo do Rio é assim mesmo. Nos esculhamba, nos maltrata, nos humilha,
mas no fim é em Macaé que vocês vêm se banhar. Um dia essa injustiça será reparada. Eu tenho
fé que ainda verei Macaé tornar-se a Capital Federal, como deveria ter sido desde sempre! É
isso mesmo! Macaé! E não essa porcaria de Rio de Janeiro! Macaé, Macaé, Macaé!
A essa altura a voz do bairrista inspetor tornara-se um som distante. Cabisbaixo, José
Lael deixou em silêncio a praia e seguiu para a rodoviária. Sentia um profundo vazio dentro do
peito, como se uma parte dele tivesse sido arrancada, mastigada e digerida por uma pessoa com
problemas intestinais, e agora o seu coração não passasse de um vento malcheiroso. Lamentava-se
da injustiça que era a vida, e rezava para que seus amigos, que a ele se juntaram na defesa de
uma causa sem nada pedir em troca, pudessem escapar com vida.
* * *
Foi uma humilhação atrás da outra. Não bastasse ver a violação de sua casa e de sua
mobília que ainda nem terminara de pagar, executada com requintes de crueldade por um Oficial
da Justiça cujo ódio à vida e à raça humana era quase tangível, Gláucia ainda teve de assistir
a ocupação da mesma por uma outra família. Antes não tivesse visto. Antes tivesse ido embora
sem destino, sem teto, sem motivação, a ter de assistir tão doloroso e deprimente espetáculo.
Os novos proprietários chegaram logo depois que a elefanta arrebentou o derradeiro
móvel da casa, e imponentes atravessaram a porta olhando tudo com muita repugnância. A
matriarca, uma senhora enorme que vinha à frente do grupo, fazia caretas a cada passo dado e
dizia que tudo ali era desprezível. Atrás dela, o marido andava encurvado, vestindo uma roupa
amarfanhada e ostentando na magreza da face a vergonha e a infelicidade. Os filhos vinham um
pouco depois: a filha mais velha, gorda como a mãe, trazia a tiracolo o marido, que por sua vez
carregava duas crianças, uma em cada braço, sendo seguido por uma terceira. Por último vinha o
filho caçula, um adolescente de olhos vermelhos, cabelos desgrenhados e boné com a aba virada
para trás. Era essa versão piorada de Família Addams que estava ocupando o lugar em que por
tantos anos Gláucia vivera com seu cônjuge, e por isso Gláucia chorou.
Começaram a cair os primeiros pingos de chuva quando José Lael enfim chegou. O infeliz
ex-proprietário foi encontrar a esposa sentada no chão, encolhida como uma mendiga,
choramingando, sofrendo, e abraçou-a. Choraram juntos até que a chuva engrossou e eles tiveram
de procurar um abrigo.
- Você está bem? - perguntou José Lael à esposa, que não parava de tossir.
Mas Gláucia não respondeu.
* * *
Estirada na rede na varanda da casa adquirida não fazia nem um mês, a matriarca
detinha-se na leitura de uma revista de fofocas. Olhava com interesse as fotos do casamento de
uma apresentadora de TV que, aos 103 anos, contraíra núpcias com um ator mexicano do elenco da
novela Carrossel (em sua quinta versão), de apenas nove anos de idade. A revista mostrava, em
páginas grandes e coloridas, imagens do casal se beijando na boca e, com exclusividade, o
interior do castelo medieval onde passariam a noite de núpcias, com direito a correntes, carvão
em brasa, lâminas afiadas, algemas e uma mamadeira cheia de cachaça. A matriarca olhava aquilo
tudo se mordendo de inveja, e deixava-se levar pela onda de lamentações que se erguia sempre
que a felicidade alheia se escancarava diante de sua cara.
- Moscas - resmungou, sacudindo a revista. Ô lugar mais cheio de moscas...
A matriarca emitiu um suspiro que também era um grunhido. Coçou-se em partes íntimas
após verificar se não havia ninguém na vizinhança olhando, e só então, ao surpreender-se com
um casal de bem-te-vis que passou voando sobre sua cabeça, notou que o currupião mantido na
gaiola estava calado. Coisa estranha, já que o bichinho parecia não ter nascido para outra
coisa senão cantar. Era, na verdade, o único sinal de vida na residência, excetuando o barulho
da televisão. Pensou a matriarca em ir até a cozinha verificar se estava tudo bem, mas a
passagem pela rua de um vira-lata solitário lembrou-lhe da promessa de colocar um pratinho de
carne com veneno para deixar do lado de fora.
E tinha as moscas. De tanto praguejar acabou esquecendo do passarinho recém emudecido, e
ali ficaria se um acesso de tosse e catarro não a fizessem levantar. Tinha medo de morrer
engasgada com catarro, por isso sempre que vinha a tosse ela se ajeitava para respirar direito.
Arrastando a sandália pelo chão até a porta, cuspiu na rua e voltou para dentro de casa. Já que
estava de pé mesmo, foi até a cozinha tomar um pouco de refrigerante para desentupir o
organismo.
Lembrou-se, ao ver a gaiola pendurada na parede, da ave ali aprisionada e foi olhar.
Tomou um susto desses de levar as mãos à boca, ao ver a gaiola vazia e aberta. Ai, meu Deus,
falou, cadê o passarinho? Como Deus nem ninguém respondesse, ela ficou ali, idiota, procurando
em quem pôr a culpa pela fuga do bicho. Algum moleque entrou dentro da sua casa e soltou o
bicho. O filho da vizinha da casa 20. Ou o da casa ao lado. A matriarca xingou todos eles,
jurando vingança mesmo sem saber que providências tomaria. Acabou dando de ombros. Depois o
marido arranjava outro.
Quando virou-se para a geladeira foi que ela viu o passarinho. Caído no chão, as
perninhas para cima e os olhos abotoados. Não cantava mais, nem cantaria. Completamente morto.
Ainda que durona, a grande matriarca tremeu os lábios ao curvar-se para pegar o cadáver com uma
toalha de papel. E foi ainda curvada, posição ingrata, que ela tomou novo susto, levantando-se
rapidamente e olhando para trás.
Jurava ter ouvido uma voz masculina dizendo safadezas a respeito da sua bunda...
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