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O pouco inspirado refrão
Maurício Limeira



    Eu estava sozinho e queria aconchego, por isso aninhei a cabeça entre as peles da figura embaçada, criatura sem nome que deixou a amiga e me foi solidária, me recebeu entre as várias promessas de infelicidade que os fogos, que as feras, que as fugas e os ventos lhe trouxeram durante a semana. "Infeliz por infeliz, prefiro você", ela disse, envolvida num redemoinho que não se movia, um redemoinho que era quase fotografia de lençóis e edredons e perfumes e uma luzinha bem fraca bem fraca que jamais apagava nem quando eu ia e apertava o interruptor da retina. Hoje eu sei que pensei que a luzinha era vida e não era. Hoje sei que a vida que não era luzinha era mesmo o interruptor.

    E lá íamos nós namorados sem chances nem desejos de vitória, porque já havíamos vencido e ninguém soube. Ninguém soube e nem imagina o quanto estivemos tão perto e tão perto deixamos de estar. E de namorados descemos milhões de degraus e cada degrau para baixo era um novo mal entendido que ia turvando e manchando um a um os milagres que tivemos tanto trabalho e tanta sorte e tão pouco tempo para tecer.

    "Paciência", murmuraram depois dela uma segunda e terceira senhoras, cada uma mais bela e mais nova e mais velha e mais louca e mais triste e mais sozinha do que eu achava que seria possível um ser humano ser. E do outro lado da Terra uma centena de homens surgiram em torno daquela mulher e em cada um ela esqueceu um pouco de mágoa, de gozo, de falta, de beijo, de mim. Foi numa cidade distante de todos os mapas onde a noite era um uivo atrás da montanha chamando os insones, onde as camas quando as pernas trançavam eram abismos que a memória engolia. Ali ela conheceu o homem forte e o homem sábio, o homem belo e o animal carnívoro, e por todos os corpos celestes ela deixou-se atravessar e se fez oceano bravio e suas ondas foram furadas por embarcações precárias e transatlânticos, submarinos e balsas, luares e tubarões.

    Eu vadiava entre ais e assins e entre berros e dores de paixões que iam e vinham como o inverno que chega depois de um dia de sol, e voltava tropeçando em remorso e em festa já sem saber do que eu gostava e de quem queria fugir. Eu chegava em casa e olhava na porta outro número, entrava em casa e olhava na sala outro dono, e ficava sem entender nada do que me diziam e o que me diziam é que eu não era dali, que já (que ainda) era tarde e que eu fosse embora e achasse a minha casa. E eu ficava até ser expulso. E a sensação perpetuava-se, perpetuava-se, perpetuava-se, e eu quase entendi que cada novo minuto era uma nova expulsão, mas não era, era a mesma expulsão da mesma pessoa do mesmo lugar no mesmo tempo defeituoso. Minha vida era um engasgo só.

    Ela enquanto isso chorava.

    Um dia calhou de uma esquina que ficava atrás de uma rua onde havia um prédio que já foi um cinema servir de palco para que nos reencontrássemos. Dois estranhos que descobriam dentro do outro um pedaço de espelho partido, dois estranhos e empoeirados álbuns de recordações em dia de faxina, duas datas históricas que no entanto nenhum governo quis fazer feriado, mas que assim mesmo o feriado foi feito. Naquele dia ela disse que infeliz por infeliz, continuava me preferindo, e todas as placas em todas as ruas e em todos os balcões de informação indicavam a minha casa, que era nos braços que ela me abria, e não nas estrelas, nem nos desertos nem em qualquer cidade cenográfica reproduzindo a infância.

    Não era. Na mesma encantada noite de nosso retorno o futuro veio e foi. Não esperamos sequer o amanhecer para desamarrar nossos horizontes e de novo tomarmos o rumo da chuva, o rumo dos pensamentos intensos que não acham par nem trazem conclusão, o rumo da fome, o rumo do mundo vazio. De novo voltávamos a ser dois no lugar de um, e de novo não sabíamos o que seria de nós a partir de então, se vagaríamos a esmo entre a falta de identidade e a liberdade da indecisão, ou se fecharíamos a cadeado a vontade de se estar reunido a alguém. Ah, vontade inimiga que não se resolve, que não se sacia. Já não tenho paciência, não tenho ânimo, não tenho saco para este instante da vida que virou um refrão.






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