Eu estava sozinho e queria aconchego, por isso aninhei a cabeça entre as peles da
figura embaçada, criatura sem nome que deixou a amiga e me foi solidária, me recebeu entre as
várias promessas de infelicidade que os fogos, que as feras, que as fugas e os ventos lhe
trouxeram durante a semana. "Infeliz por infeliz, prefiro você", ela disse, envolvida num
redemoinho que não se movia, um redemoinho que era quase fotografia de lençóis e edredons e
perfumes e uma luzinha bem fraca bem fraca que jamais apagava nem quando eu ia e apertava o
interruptor da retina. Hoje eu sei que pensei que a luzinha era vida e não era. Hoje sei que a
vida que não era luzinha era mesmo o interruptor.
E lá íamos nós namorados sem chances nem desejos de vitória, porque já havíamos vencido
e ninguém soube. Ninguém soube e nem imagina o quanto estivemos tão perto e tão perto deixamos
de estar. E de namorados descemos milhões de degraus e cada degrau para baixo era um novo mal
entendido que ia turvando e manchando um a um os milagres que tivemos tanto trabalho e tanta
sorte e tão pouco tempo para tecer.
"Paciência", murmuraram depois dela uma segunda e terceira senhoras, cada uma mais bela
e mais nova e mais velha e mais louca e mais triste e mais sozinha do que eu achava que seria
possível um ser humano ser. E do outro lado da Terra uma centena de homens surgiram em torno
daquela mulher e em cada um ela esqueceu um pouco de mágoa, de gozo, de falta, de beijo, de mim.
Foi numa cidade distante de todos os mapas onde a noite era um uivo atrás da montanha chamando
os insones, onde as camas quando as pernas trançavam eram abismos que a memória engolia. Ali
ela conheceu o homem forte e o homem sábio, o homem belo e o animal carnívoro, e por todos os
corpos celestes ela deixou-se atravessar e se fez oceano bravio e suas ondas foram furadas por
embarcações precárias e transatlânticos, submarinos e balsas, luares e tubarões.
Eu vadiava entre ais e assins e entre berros e dores de paixões que iam e vinham como o
inverno que chega depois de um dia de sol, e voltava tropeçando em remorso e em festa já sem
saber do que eu gostava e de quem queria fugir. Eu chegava em casa e olhava na porta outro
número, entrava em casa e olhava na sala outro dono, e ficava sem entender nada do que me
diziam e o que me diziam é que eu não era dali, que já (que ainda) era tarde e que eu fosse
embora e achasse a minha casa. E eu ficava até ser expulso. E a sensação perpetuava-se,
perpetuava-se, perpetuava-se, e eu quase entendi que cada novo minuto era uma nova expulsão,
mas não era, era a mesma expulsão da mesma pessoa do mesmo lugar no mesmo tempo defeituoso.
Minha vida era um engasgo só.
Ela enquanto isso chorava.
Um dia calhou de uma esquina que ficava atrás de uma rua onde havia um prédio que já
foi um cinema servir de palco para que nos reencontrássemos. Dois estranhos que descobriam
dentro do outro um pedaço de espelho partido, dois estranhos e empoeirados álbuns de
recordações em dia de faxina, duas datas históricas que no entanto nenhum governo quis fazer
feriado, mas que assim mesmo o feriado foi feito. Naquele dia ela disse que infeliz por
infeliz, continuava me preferindo, e todas as placas em todas as ruas e em todos os balcões de
informação indicavam a minha casa, que era nos braços que ela me abria, e não nas estrelas,
nem nos desertos nem em qualquer cidade cenográfica reproduzindo a infância.
Não era. Na mesma encantada noite de nosso retorno o futuro veio e foi. Não esperamos
sequer o amanhecer para desamarrar nossos horizontes e de novo tomarmos o rumo da chuva, o
rumo dos pensamentos intensos que não acham par nem trazem conclusão, o rumo da fome, o rumo
do mundo vazio. De novo voltávamos a ser dois no lugar de um, e de novo não sabíamos o que
seria de nós a partir de então, se vagaríamos a esmo entre a falta de identidade e a liberdade
da indecisão, ou se fecharíamos a cadeado a vontade de se estar reunido a alguém. Ah, vontade
inimiga que não se resolve, que não se sacia. Já não tenho paciência, não tenho ânimo, não
tenho saco para este instante da vida que virou um refrão.