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Transversais
Maurício Limeira



    Ele sentou no sofá e custou para começar a falar. Era o último do dia, por isso ela tentou apressá-lo puxando conversa:

    - E aí? Tá tudo bem?

    Ele olhava para o chão, abatido. A expressão patética sugeria um homem capaz de, nos próximos dez segundos, fazer qualquer coisa que lhe desse na telha. De dormir no chão a pular pela janela. Talvez por reflexo, ela voltou os olhos para a janela do escritório. Que, por sinal, estava aberta.

    - Hoje saí do trabalho e fui andando - ele enfim começou. Quando cheguei no ponto de ônibus, em vez de parar e esperar eu continuei andando. Sem rumo. Segui pela Nossa Senhora, virei na Princesa Isabel, atravessei o túnel. Em Botafogo tomei a Rua da Passagem e a Voluntários até a praia. Fui até o Aterro do Flamengo assim.

    - Uma boa caminhada - ela concluiu, depois que ele se calou. E no que você pensou durante o trajeto?

    - Não pensei. Eu só não tinha pra onde ir.

    - Não queria ir pra casa.

    - Atualmente não conheço nenhum lugar que possa chamar de "casa".

    O dia era sexta-feira. Ela mal conseguia pensar em outra coisa que não no paulista que conhecera na internet, e que estava chegando ao Rio só para vê-la. No entanto ali permaneceu, atenta, e ouviu boazinha todas as lamentações do sujeito cuja depressão era tanta, que o certo seria indicar-lhe um psiquiatra. Mas para não perder o paciente (já não eram muitos os que vinham com ela se consultar) não disse nada, limitando-se a ouvir e fazer uns comentários que o aliviassem de suas desgraças.

    - Eu só queria poder passar por algumas ruas sem ter recordações - ele ia dizendo. Queria não me sentir sozinho quando anoitece. Queria conseguir ouvir Como Vai Você, do Roberto Carlos, até o fim sem chorar.

    - Tente ouvir a gravação da Daniela Mercury.

    - O quê?

    - Nada. Pensei alto, me desculpe. Prossiga.

    - Esse é o problema. Não quero mais prosseguir.

    - Espera aí, como assim? Como não quer mais prosseguir? Prosseguir com as consultas? Não me parece que você esteja em condições de...

    - Prosseguir com a vida.

    - Ah, bom. Estava pensando que... Você disse "com a vida"?

    - Estou cansado. Não agüento mais não dar certo nunca, em nada. Não agüento mais fracassar, não agüento mais essa sensação de perda sempre, não consigo mais suportar isso, não consigo!

    Cabeça metida nas palmas das mãos, ele começou a chorar. Era a primeira vez que fazia isso ali dentro. Desde a primeira consulta, dois meses antes, tivera sempre o cuidado em jamais expor seus sentimentos, mas apenas descrevê-los da maneira mais fria possível. Era natural que, cedo ou tarde, a represa vazasse. Ainda que já esperando por isso, a surpresa ao vê-lo chorar foi tanta que comoveu a psicóloga. Mais do que isso, a excitou. Não conseguia olhar a fragilidade em que ele se encontrava sem querer aproveitar-se disso, e o pensamento mesquinho, consciente de sua mesquinhez, levou a mulher ao ponto mais alto da montanha de seu desejo. Levantando-se da poltrona ela foi até ele como que para reconfortá-lo, e deixou-se abraçar.

   Ele estava tão triste que nem notou que a mulher se arrepiava. Apenas quando sentiu a boca tocando-lhe os cabelos e descendo pela face é que se deu conta. Não pensou em resistir, nem em nada. Foi de encontro à pele que se oferecia, e logo os dois estavam atracados no tapete da sala que ela usava como consultório. Enquanto afastava para o lado a calcinha e se abria para recebê-lo, ela ainda conseguiu dar uma olhada discreta no relógio da parede. Teria de inventar uma boa desculpa para o atraso com o paulista.

   
* * *


   

   No sábado seguinte, ao chegar em casa depois de passar a noite com o paulista num hotel no Leblon, foi recebida com flores e recados apaixonados na secretária eletrônica. À amiga com quem dividia o apartamento contou a aventura do dia anterior, ouvindo um "você é louca" entre risos e pedidos ansiosos por mais detalhes, tanto de um como do outro. O paciente, ela dizia, tinha certeza de que não pensaria mais em se matar. Do paulista lembrou com um suspiro e uma promessa: "Esse eu não deixo voltar para São Paulo nunca mais". Iriam encontrar-se novamente à noite, e tanto ela elogiou o homem lindo, gostoso, rico e bom de cama, que a outra não demorou para concluir: "Você está apaixonada, amigaaa!"

   Quanto ao paciente, está até agora com cara de pateta, colado ao telefone e ouvindo a voz da psicóloga na gravação. Ficará ansioso durante todo o final de semana, e na segunda-feira voltará ao consultório mesmo sem ter hora marcada nesse dia. Será dispensado por ela, que não poderá atendê-lo, e voltará andando para casa, mergulhado novamente em profunda depressão. O paulista, por sua vez, recolocará no dedo a aliança dourada e retornará para sua cidade natal, inventando desculpas cada vez que a psicóloga o procurar na internet, ou por telefone. Como transversais se cruzando por força do acaso, os três se reencontrarão quarenta e cinco anos depois, em 2048, numa clínica geriátrica federal-particular que nada mais será do que um dos muitos campos de concentração criados pelo Estado em parceria com a iniciativa privada para acolher idosos, aposentados, doentes crônicos, deficientes e outros imprestáveis. Conversarão rapidamente num corredor imundo antes de seguirem para suas celas, conformados e esquecidos por seus parentes. Obviamente nenhum deles recordará aquele fim de tarde numa distante sexta-feira de um distante ano de 2003.




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