Principal
   Editorial
   Tonitruâncias
   O Cisco de Olho
   Cinema & TV
   Filmoteca
   Programação
   Teatro
   Poesia
   Quadrinhos
   Ciscando
   Livros do Cisco
   Grupo de Discussão
   Serviços
   Créditos
   E-mail
   Busca
 
 

   
 No Cisco Na Web   
Fornecido por FreeFind

    




A Marola Revolucionária
Maurício Limeira



    O sujeito que ele tinha que treinar era um jovenzinho magricelo. Muito branco, óculos de aros grosseiros e cabelo repartido ao meio, lambuzados com gel. Apresentados pela funcionária dos Recursos Humanos, ele não perdeu tempo com conversa fiada. Levou-o logo para a frente do computador e mostrou-lhe o sistema da empresa.

   - Nesse campo estão todos os nossos clientes. Nesse estão os lançamentos. Se você der "enter" aqui, vê tudo o que está pendente, o que está atrasado e o que ainda não aconteceu. Mais um "enter", e vê os lançamentos com nota fiscal.

    Foi então que o sujeito o interrompeu.

   - Eu escrevi uma poesia.

    Ele fingiu que não escutou e continuou mostrando o que fazer quando uma pendência era resolvida. Bastava clicar no F5 que abria uma nova janela perguntando se o usuário queria atualizar, esquecer para sempre ou apagar tudo da sua vida. Mas o sujeito insistiu.

   - Uma poesia sobre as contradições do modo de produção capitalista. Você quer ouvir?

   - Quero - ele respondeu, sem pestanejar.

    Não estava mesmo com muita paciência, e aquela terça-feira parecia ideal para um recital de poesia no meio do escritório. O sujeito então começou, dando uma entonação dramática aos versos que trazia decorados:

   - Tudo é consumível. Tudo é reciclável. Toda carne humana é passível de substituição.

    Nesse momento o sujeito fez uma pausa e olhou bem dentro dos olhos dele, preparando-o para o que achava ser a revelação de sua vida:

   - Mas eu sou perecível. E a fome que eu não sacio sacia a fome do mundo por mim. O mundo é mãe e é fera, primeiro me amamenta e depois me devora. Até que um dia, de tanto prosseguir nesta incestuosa relação, a mãe devoradora se torna um ser estéril, e sua casa, um vasto campo sem vida.

    O sujeito fez outra pausa, certamente para assimilação do conteúdo proferido, e então disse:

   - Acabou. Que tal?

    Ele até havia gostado das maluquices do novato, mas preferiu provocá-lo:

   - Não entendi nada.

    Chegou a ficar comovido com a decepção que tingiu de treva a cara do coitado. Mas, já que estava mesmo disposto a pôr lenha na fogueira, prosseguiu:

   - Olha aqui, meu camarada, esse negócio de poesia é muito bonitinho mas não funciona. Se você está a fim de criticar o modo de produção capitalista, faça de um jeito que todo mundo entenda. Suba pelado na mesa e grite. Vá na sala do diretor e dê-lhe um beijo na boca. Coloque na rede um vírus que transforme todas as planilhas da empresa em orações para São Judas Tadeu. Isso sim é poesia. Isso sim é atitude. Entendeu, garoto?

    O poeta olhou-o de olhos arregalados.

   - Mas se eu fizer isso serei mandado embora...

   - Não necessariamente. Se você beijar bem, o patrão pode até te promover.

   - Eu estou falando sério.

   - Eu também. E digo agora, com toda a seriedade, pra você: você é tão conservador quanto a menina da recepção. Quer criticar, quer revolucionar? Então faça isso pra valer.

   - Mas...

   - Mas nada. e agora preste atenção: apertando ESC você volta pra tela anterior. Olha só. Esse cliente aqui, a Drogaria Caçapava. Por que ela tá em vermelho?

   - Porque tem pendência?

   - Isso. E como você vê o tipo de pendência?

   - Clico no ENTER.

   - Isso.

   
* * *


    No dia seguinte, o novato apareceu diferente. Dispensara o gel nos cabelos, e a camisa não estava mais por dentro da calça. Passada uma semana, ele veio mostrar ao veterano o fanzine que começara, com um grupo de amigos, na Internet. Para ele, a revolução havia começado, e dessa vez o veterano nada disse.






Outras Tonitruâncias



 
 
      

Mala direta

Digite seu e-mail:
   
 

Busca gratuita de empregos

Digite o cargo desejado:







  Criação e edição:


     Volta ao Topo

   Principal    Editorial    Tonitruâncias    O Cisco de Olho    Cinema & TV    Filmoteca    Programação    Teatro    Poesia    Quadrinhos    Ciscando    Livros do Cisco    Grupo de Discussão    Serviços    Créditos
   E-mail
   Busca
 
 

   
 No Cisco Na Web   
Fornecido por FreeFind




Melhor visualizado com o navegador Internet Explorer 5.0 ou superior,
com resolução de 800x600.



Vergonha na cara não é vírus.