O sujeito que ele tinha que treinar era um jovenzinho magricelo. Muito branco, óculos de
aros grosseiros e cabelo repartido ao meio, lambuzados com gel. Apresentados pela funcionária dos
Recursos Humanos, ele não perdeu tempo com conversa fiada. Levou-o logo para a frente do
computador e mostrou-lhe o sistema da empresa.
- Nesse campo estão todos os nossos clientes. Nesse estão os lançamentos. Se você der
"enter" aqui, vê tudo o que está pendente, o que está atrasado e o que ainda não aconteceu.
Mais um "enter", e vê os lançamentos com nota fiscal.
Foi então que o sujeito o interrompeu.
- Eu escrevi uma poesia.
Ele fingiu que não escutou e continuou mostrando o que fazer quando uma pendência era
resolvida. Bastava clicar no F5 que abria uma nova janela perguntando se o usuário queria
atualizar, esquecer para sempre ou apagar tudo da sua vida. Mas o sujeito insistiu.
- Uma poesia sobre as contradições do modo de produção capitalista. Você quer ouvir?
- Quero - ele respondeu, sem pestanejar.
Não estava mesmo com muita paciência, e aquela terça-feira parecia ideal para um recital de
poesia no meio do escritório. O sujeito então começou, dando uma entonação dramática aos versos
que trazia decorados:
- Tudo é consumível. Tudo é reciclável. Toda carne humana é passível de substituição.
Nesse momento o sujeito fez uma pausa e olhou bem dentro dos olhos dele, preparando-o para o
que achava ser a revelação de sua vida:
- Mas eu sou perecível. E a fome que eu não sacio sacia a fome do mundo por mim. O mundo é
mãe e é fera, primeiro me amamenta e depois me devora. Até que um dia, de tanto prosseguir
nesta incestuosa relação, a mãe devoradora se torna um ser estéril, e sua casa, um vasto campo
sem vida.
O sujeito fez outra pausa, certamente para assimilação do conteúdo proferido, e então disse:
- Acabou. Que tal?
Ele até havia gostado das maluquices do novato, mas preferiu provocá-lo:
- Não entendi nada.
Chegou a ficar comovido com a decepção que tingiu de treva a cara do coitado. Mas, já que estava
mesmo disposto a pôr lenha na fogueira, prosseguiu:
- Olha aqui, meu camarada, esse negócio de poesia é muito bonitinho mas não funciona. Se
você está a fim de criticar o modo de produção capitalista, faça de um jeito que todo mundo
entenda. Suba pelado na mesa e grite. Vá na sala do diretor e dê-lhe um beijo na boca. Coloque
na rede um vírus que transforme todas as planilhas da empresa em orações para São Judas Tadeu.
Isso sim é poesia. Isso sim é atitude. Entendeu, garoto?
O poeta olhou-o de olhos arregalados.
- Mas se eu fizer isso serei mandado embora...
- Não necessariamente. Se você beijar bem, o patrão pode até te promover.
- Eu estou falando sério.
- Eu também. E digo agora, com toda a seriedade, pra você: você é tão conservador quanto a
menina da recepção. Quer criticar, quer revolucionar? Então faça isso pra valer.
- Mas...
- Mas nada. e agora preste atenção: apertando ESC você volta pra tela anterior. Olha só.
Esse cliente aqui, a Drogaria Caçapava. Por que ela tá em vermelho?
- Porque tem pendência?
- Isso. E como você vê o tipo de pendência?
- Clico no ENTER.
- Isso.
* * *
No dia seguinte, o novato apareceu diferente. Dispensara o gel nos cabelos, e a camisa não
estava mais por dentro da calça. Passada uma semana, ele veio mostrar ao veterano o fanzine que
começara, com um grupo de amigos, na Internet. Para ele, a revolução havia começado, e dessa
vez o veterano nada disse.