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07.11.2004
Vermelho
Maurício Limeira
Manhã cedo quando desci do avião em Congonhas, São Paulo. O táxi à minha espera, o
motorista já ciente de onde deveria me levar. Um céu quase negro prometia: tempestade à frente.
O motorista ora reclamava do trânsito, ora do Corínthians. Curiosamente, era um
paulistano fã do Zico e do Flamengo dos bons tempos. Não dá pra gostar de futebol e não gostar
do Zico, ele dizia. Aquilo é que era jogador. Hoje não tem mais igual. Minha atenção, no
entanto, voltava-se para a cidade emporcalhada pela propaganda das eleições. Num outdoor a foto
da prefeita candidata à reeleição ao lado do presidente dizia: Essa dupla faz. Atrás deles, da
dupla que faz, um fundo bem vermelho.
- Verei muito essa cor hoje - pensei alto.
- Como? - perguntou o motorista.
- Nada.
O táxi parou, muito tempo depois, diante de uma mansão num bairro nobre. Agora a
gente espera?, perguntou o taxista. No banco traseiro tinha um porrete. Passei-o para o banco da
frente e fiquei segurando-o, sem tirar o olho da mansão. Espera, respondi.
Não precisou esperar muito. Logo o portão se abriu para a saída de um carro luxuoso,
importado. Desses de televisão. Não dava para ver quem estava dentro, mas não carecia. Com o
porrete na mão, abri a porta do táxi e saí. Volto já, avisei.
A porta da frente do carro foi se abrindo assim que parei diante dele. Um sujeito
parrudão veio esbravejando tomar satisfações comigo, mas meu horóscopo avisara que o
dia não estava favorável para o diálogo. Arrebentei a cabeça do parrudão com o porrete. Sou
capricorniano, caso deseje saber. Ascendente em capricórnio e lua em câncer. Um amor de pessoa,
dizem os astros.
Agora é a porta de trás do carro que se abre, e dele sai outro parrudão gritando.
Não sei que mania têm esses parrudões de gritarem comigo. Acerto primeiro no joelho, com força,
para que caia. Enquanto está se contorcendo de dor, dou-lhe uma traulitada na cabeça. Tenho uma
afetividade muito bem resolvida, disse o horóscopo de hoje. Sou capaz de compreender e assimilar
as alterações nos sentimentos humanos. Um doce.
Dentro do carro, o sujeito barrigudo, meio careca e barba grisalha por fazer tenta
esconder o medo atrás de agressões verbais. Pergunta se eu estou maluco. Se eu sei quem ele é.
Se sei onde estou me metendo. Claro que sei. Arranco o cara do carro e saio arrastando-o até o
táxi. Pesado. Esperneando, fica mais pesado ainda. Inferno astral. Dele, não meu.
Empurro o barrigudinho para o banco de trás do táxi e entro junto. O motorista sabe
para onde ir, e dá imediatamente a partida. O barrigudinho tagarela pensa que é seqüestro.
Oferece dinheiro. Diz que tem amigos importantes. Eu só consigo pensar no vermelho do outdoor.
Essa dupla faz.
No Rio de Janeiro a gente chama de subúrbio. Aqui em São Paulo é periferia. Então é
para a periferia que vamos.
O táxi estaciona diante de um casarão caindo aos pedaços. Boto o barrigudinho para
fora do carro, e pergunto para o motorista quanto foi a corrida. Ele se recusa a cobrar.
Agradeço-lhe, devolvendo o porrete emprestado e pedindo desculpas por sujá-lo de sangue de
parrudões. Nos despedimos e o carro vai embora. Vou dando safanões no barrigudinho até entrarmos
no casarão. Para os fundos da casa, aviso. Estão nos esperando lá.
Ele segue aos tropeços pelo piso de tábua corrida. Percorre um corredor até um
grande salão, e leva um tremendo susto quando vê o que o espera.
No centro do salão foi montada uma pequena arena. Ao redor, a platéia agitada
manifesta-se, pula, se sacode, faz barulho. O que é isso?, o barrigudinho pergunta, apavorado.
Meu Deus, o que é isso?
São galos, eu respondo. Achei que você já estivesse acostumado com eles.
Dezenas de galos, das mais variadas raças e tamanhos, se espalham alvoroçados ao
redor da arena. O barrigudinho tenta fugir, mas eu o empurro para o centro da roda. O que vocês
vão fazer comigo?, ele berra. Alguns galos chegam a cantar, de tanta euforia. Vai depender de
você, respondo. Aqui todo mundo apostou em mim. Se você ganhar, leva uma boa grana.
Ele me chama de louco, mas a hora da conversa acabou. Entro na arena e acerto com o
punho esquerdo a cara do barrigudinho. O sangue que sai do nariz dele me lembra de novo o
vermelho do outdoor. Ele grita por socorro, e leva outro murro, agora com a direita. A platéia
galinácea está tão alucinada que voam penas pelo ar empoeirado. Um pontapé nas costelas, e me
parece ouvir o barulho de osso quebrando. Para confirmar, chuto de novo, no mesmo lugar,
seguidas vezes. Levanta, ordeno ao monte da carne mole caída no chão. Ainda não acabei.
Isso é só um hobbie meu, ironizo. O Brasil inteiro sabe.
Só que o barrigudinho não é bobo. Pelo contrário. No momento em que me abaixo para
levantá-lo, ele aproveita a oportunidade e enfia a mão gorda no meio das minhas pernas. Aperta
com toda a força. A dor é tão grande que eu fraquejo e desabo. E ele continua apertando. Procuro
me soltar, mas a mão livre dele veio em direção à minha cara, e a última coisa que vejo são seus
dois dedos, o indicador e o maior de todos, diante de meus olhos.
Agora só da pra ouvir e sentir. E o que sinto são os dedos quebrando meus óculos e
entrando, junto com os cacos das lentes, pelos meus olhos. O líqüido quente, que sai dos dois
buracos abertos acima do nariz e escorre pelo rosto, traz de novo a lembrança do vermelho do
outdoor. Ainda levo umas boas porradas na cara, chutes na cabeça e no corpo, antes que o
barrigudinho comece a rir. Tá pensando o quê, vagabundo, ele diz. Pensa que pode me pegar e
ficar por isso mesmo? Sabe com quem está falando? Sabe que eu sou? Tá me ouvindo, vagabundo?
Estou ouvindo. Perfeitamente. E continuo ouvindo, estirado no chão, quando as
gargalhadas dele dão lugar a gritos de dor, e os cacarejos da platéia tornam-se mais próximos. E
furiosos. Não preciso de olhos, para saber que ele está sendo atacado pelos galos. Mas bem que
gostaria de ver.
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