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Avestruz
Maurício Limeira



    A criança repetia:

   - Mamãe...

   Mas a mamãe, ocupada demais falando com alguém no celular. Insistiu a criança:

   - Mamãe, mamãe...

   A mãe claramente brigava com alguém. Com a empregada, decerto. Aumentava a voz e chamava a pobre criatura de imbecil. A criança fez a última tentativa:

   - Mamãe...

   E se borrou toda. Eu estava na mesa ao lado, e pude ver bem quando o shortinho foi ficando marrom nos fundilhos. Quando encerrou a sessão de ofensas ao interlocutor, a mãe soltou um impaciente "O que é?" para a criança, que respondeu envergonhada:

   - Fiz cocô.

   A mãe soltou um palavrão, levantou da cadeira, agarrou a criança borrada e carregou-a para o banheiro. O garçom apareceu logo depois com um spray purificando o ar, empestado com a catinga.

   - Você deve gostar muito de crianças.

   - Eu?

   A pergunta me pegara de surpresa. Vinha da mesa à minha frente, proferida por uma mocinha com pinta de estudante de jornalismo: cabelo curtinho, óculos minúsculo de armação preta retangular, camiseta colada deixando a barriga de fora, saia comprida estampada, sandália. Ostentava desleixo e casualidade minuciosamente construídos, e trazia na pasta transparente um punhado de revistas importadas.

   - É, você - ela disse. Tava te sacando. Não tirou o olho da menininha cagada. Deve adorar crianças.

   - Se eu partir do mesmo princípio, devo concluir então que você me adora.

   - Ué, por quê?

   - Por nada. Deixa pra lá.

   - Você é muito presunçoso... Aposto que é libriano.

   - Melhor não apostar.

   - Então é de gêmeos.

   - Não.

   - Pôrra, qual é o teu signo, afinal?

   - Capricórnio.

   - Ah, eu sabia! Só podia ser capricórnio. Sempre na sua, cheio de não-me-toques, ar de superior... Deve se achar o máximo. Meu ex se achava. Ele era capricorniano.

   - Morreu?

   - Não, idiota - pela primeira vez ela riu. Ainda é.

   Àquela altura, quem estava no café ficou prestando atenção, mesmo sem querer, nos dois clientes que conversavam cada um na sua mesa. Ela percebeu, e sem pedir veio sentar-se junto a mim.

   - O que é isso que você tá lendo aí?

   - Um livro.

   - Você é muito babaca! - ela gargalhou, dando-me um tapa no ombro para que eu parasse de bancar o engraçadinho.

   Como não parei, ao longo da conversa recebi mais alguns tapas antes que nos beijássemos pela primeira vez. Beijava bem, a menina, embora apertasse minha nuca como que tentando arrancar a cabeça que vinha logo acima. Do café partiríamos para a última fileira do cinema mais próximo e até hoje nenhum de nós lembra que filme foi aquele cujo ingresso compramos, de tão atracados que estávamos um no outro. Trouxe-a para a minha casa quando a sessão terminou, não deixei a coitadinha em paz a noite inteira e fui várias vezes por ela chamado de tarado, e de cachorro, e de animal feroz.

   Na manhã seguinte levei-a em casa e fui apresentado a seus pais. A mãe me adorou, o pai não gostou da minha idade, nem da minha altura, nem do meu emprego. Cismou de colocar em mim o apelido de Avestruz e, para meter-me medo, pegou o revólver que guardava na gaveta desde os tempos do exército para, simulando embriaguez, fingir aos tropeços que atirava para todos os lados. A mãe e a filha não gostaram da brincadeira de mau gosto, mas eu morri de rir.

   Quinze dias depois ficamos noivos. Nos casamos em outubro, mesmo mês do casamento dos pais dela, com quem fomos morar. Abandonei o mestrado em Sociologia para trabalhar como contador na firma do sogro. No ano seguinte veio nossa filha, cujo nome não consigo lembrar, e foi-se a minha sogra, abatida por um infarto fulminante. Hoje não faço nada além de trabalhar para pagar as contas da casa, minha mulher tornou-se obesa e o café onde nos conhecemos virou uma farmácia.




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