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05.12.2004
Diários de supermercado
Maurício Limeira
Na prateleira, o arroz parboilizado em promoção custava 6,70 o pacote de 5kg. Uma
lata de 400g de achocolatado saía por 2,95 só naquele dia, e uma bebida à base de soja tinha o
preço de 1,80 desde que não fosse na versão light. No setor de laticínios, o jovem pai mostrava
ao filho de cinco anos as duas embalagens de iogurte.
- O que meu pequetinho vai querer? - perguntava, balançando as embalagens diante da
cara do menino. O iogurte de frutas vermelhas ou o iogurte de banana? Hem, pequetinho? Diz pro
papai! Frutas vermelhas ou bananinha?
- Eu quero que vocês vão pra puta que os pariu! - berrou o pequetinho.
- Eu não sei onde ele aprende essas coisas - lamentou a jovem mãe.
- A psicóloga disse que é normal nessa idade - retrucou o jovem pai.
Eu só entrara no supermercado porque precisava muito de pilhas palito para o
controle remoto do vídeo-cassete. Se não, nem passava perto. Uma vez lá dentro, no entanto, é
impossível não dar uma olhada na seção de guloseimas. E quase tão impossível não presenciar uma
aula qualquer de antropologia. O núcleo familiar representativo da sociedade urbana de classe
média brasileira do século 21 estava ali, diante de mim, tão livre para observação e análise
quanto uma manada de rinocerontes numa reserva florestal.
Via-se o pai, não mais que 23 anos, paparicando a prole com gestos idiotizados
enquanto a mãe, em torno dos 27, 28, dividia-se entre acompanhar a lista de compras que trazia à
mão e dizer qualquer coisa a alguém no celular. Trazia belas olheiras que os óculos de aros
pretos tentavam disfarçar. Uma camisetinha amarela deixava os ombros e o abdômen branco
entregues, em planejado descuido, à própria sorte. As pernas, a virilha, as ancas, parte da
cintura enfiavam-se dentro de um jeans cuja perna mal escondia a panturrilha, e que servia de
moldura para um desenho estranho tatuado na canela. Sandálias de couro com tiras bem finas
calçavam um pezinho minúsculo, delicado, ideal para se pôr a boca, sem nenhum esmalte nas
unhas.
Ela acabou percebendo. Não era boba nem nada, e a atenção do pai com o moleque me
fez relaxar na discrição. Sustentou rapidamente o olhar e virou-se, precisando chamar o marido
que não parava de brincar com o pequetinho. Suspeitei de que minha permanência naquele
supermercado seria mais longa do que eu imaginara.
A partir daí nossos caminhos ainda se cruzariam algumas vezes naquele fim de tarde,
pelos corredores, entre as prateleiras. Numa delas, ao avançarmos juntos para uma mesma
embalagem de massa congelada, segurei-lhe a mão, largando-a em seguida com um pedido de
desculpas. Ela assustou-se e olhou para trás, procurando o marido. Como estivesse longe, liberou
para o meu prazer um pedaço de sorriso cúmplice.
Trocamos um último olhar na fila do caixa, e depois disso nunca mais vi a mamãe do
supermercado. Hoje fico imaginando o casal, anos depois, o pequetito já grande viciado em
drogas. Como num filme póstumo de Stanley Kubrick, marido e mulher discutindo a relação e ela
confessando que houve um homem, um dia, num supermercado. Um homem mais velho, de cabelos
grisalhos, uns dez anos a mais do que o marido, que a deixou seriamente perturbada. Tão
perturbada a ponto de largar tudo, casa, marido, filho, se ele pedisse.
Fico imaginando isso, até meus devaneios românticos serem interrompidos pela entrada
da enfermeira no quarto, no horário do banho. Finjo que não ouvi o cumprimento dela, e muito
menos a recomendação, enquanto sou despido, de que me comporte dessa vez, pois eu sou um
velhinho muito assanhado.
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