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Touro Indomável


Raging Bull,
EUA, 1980.


Com ROBERT DE NIRO, CATHY MORIARTY, JOE PESCI, FRANK VINCENT, NICHOLAS COLASANTO, THERESA SALDANA, MARIO GALLO, FRANK ADONIS, JOSEPH BRONO, FRANK TOPHAM, LORIE ANNE FLAX, RITA BENNETH.

Fotografia: MICHAEL CHAPMAN. Montagem: THELMA SCHOONMAKER. Desenho de produção: GENE RUDOLF. Produtores associados: PETER SAVAGE, HAL W. POLAIRE. Baseado no livro de JAKE LA MOTTA e JOSEPH CARTER & PETER SAVAGE. Roteiro: PAUL SCHRADER, MARDIK MARTIN. Produção: IRWIN WINKLER, ROBERT CHARTOFF. Direção: MARTIN SCORSESE.

Estréia no RJ:




Sinopse e comentário.



    Cinebiografia do lutador de boxe Jake La Motta. Campeão mundial dos pesos médios enfrentando adversários do porte de Sugar Ray Robinson (figura fácil em listas de maiores boxeadores de todos os tempos), La Motta levou uma vida atribulada tanto dentro como fora dos ringues. Profissionalmente teve que se resignar a lidar com mafiosos (que controlavam boa parte do mundo do boxe) para que lhe arranjassem boas lutas que pudessem levá-lo ao tão sonhado título mundial. Ganhou o apelido de "Touro Indomável" por ir sempre direto para cima do adversário mesmo com uma técnica pouco refinada e mesmo sendo por vezes duramente castigado por golpes dos seus oponentes que ele, como ninguém, absorvia. Extremamente ciumento e possessivo, sua vida afetiva acabou se tornando um tormento tanto para ele quanto para aqueles que o cercavam, o que viria a destruir o seu casamento e suas relações com pessoas mais próximas, como o seu irmão. Dos dias de glória ficaria só a lembrança. Praticamente sozinho e arruinado, vivia ao cabo de contar histórias em bares e casas de espetáculos de categoria duvidosa.


    Touro Indomável é um filme que pode ser considerado como uma síntese da obra do diretor Martin Scorcese. Alguns dos mais caros elementos de sua filmografia aí se encontram: personagens de personalidades complexas, violência, realismo, precisão técnica, enfim, tudo aquilo que perpassa quase todos os seu filmes. Fugindo dos maniqueísmos fáceis, das inspiradoras histórias de vida de "homens que se fizeram por si mesmos" e de todas aquelas lições morais e éticas típicas desses tipos de filmes, Scorcese procura traçar um caminho diferente. A trajetória de Jake La Motta é mostrada sem aquela manjada figura do herói ou do bandido quase que monolítico em seus sentimentos e emoções, ou seja, com ou completamente sem aquelas virtudes "bíblicas", princípios absolutos próximos da divindade. O La Motta do filme é bem mais complexo do que isso. Sua vida é tão complicada quanto... a de uma pessoa qualquer. Isso mesmo, o que faz o filme ser extraordinário é justamente a desglamourização do seu "herói". Todos os atos, sentimentos e decisões de Jake são dúbios e/ou falhos, não são nem bons nem maus absolutos. Assim, mesmo em se tratando de uma figura lendária no meio do boxe, campeão mundial, coberto com as glórias e derrotas que tal posição proporciona, em nenhum momento do filme é passada a impressão de que ele seja alguém à margem do seu meio social, uma figura em separado dos seus pares, apartada das atitudes puramente humanas. Nem é o herói campeão que venceu por seus próprios méritos e com a exemplar virtude que determina de antemão os seus atos e nem o bandido de temperamento difícil que espancava a mulher. São os seus erros (mostrados detalhadamente no filme), aliás, que o tipificam como um homem pleno, ou seja, com todas as suas dúvidas e incertezas, erros e acertos.


    Ao final, o que nos é mostrado é o retrato de um atleta excepcional, lendário lutador, campeão mundial peso médio, mas acima de tudo também o de um homem violento, intempestivo e de temperamento difícil, que errou, errou muito, destruindo sua carreira e sua família. E são esses erros, suas inquietudes e fragilidades que, ao invés de torná-lo um bandido ou um pária, o aproxima de nós, como se a qualquer momento pudéssemos encontrá-lo num boteco qualquer falando da vida, de seu passado, contando piadas e fazendo graça. (Marcos Roberto Magalhães de Sá)










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