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Com que roupa?
Valdir Medori




    Seu Artur e Dona Isabel estavam assistindo a novela das oito quando receberam, por telefone, a notícia fatal de que o filho, Arturzinho, havia dado com as dez. Detalhe importante: Arturzinho há muito tempo deixara de ser Arturzinho para se transformar em Ludmila, a vedete transformista mais famosa do centro da cidade.

   Pai e mãe foram cuidar dos preparativos para o funeral. Tudo estava nos conformes, até que o agente funerário perguntou:

   - E a roupa?

   Dona Isabel displicentemente respondeu:

   - Não sei, estou em dúvida entre um vestido azul e um salmão... Eram os dois que ele mais gostava...

   O pai contestou de pronto:

   - O quê!?! Você vai enterrar o Arturzinho de vestido? Tá louca?

   - Mas ele gostava de se vestir assim... - Constatou a mãe, chorosa.

   - Gostava quando estava vivo! Agora vai se vestir do jeito que eu quero, de camisa branca, paletó e gravata.

   Dona Isabel foi às lágrimas:

   - Você não respeita a vontade do seu filho!

   - Isabel, - ponderou o pai - o que é que o pessoal vai pensar se eu enterrar o menino vestido de mulher? Imagina, meus amigos do escritório, os amigos dele, do exercito... (Era verdade, antes de Arturzinho se transformar em Ludmila, ele não só servira o exército como ao exército.)

   O agente funerário sugeriu uma saída:

   - Se o problema é esse, por que não colocamos no rapaz, um tailleur? Com as flores por cima, não vai parecer tão feminino, no entanto...

   - O quê! - contestou Seu Artur indignado - Tailleur? Com esse monte de Botox na cara e de tailleur, vão pensar que meu filho é a Marta Suplicy! Não! Vai ser enterrado de paletó e acabou.

   Depois dessa explosão do marido, coube a Dona Isabel acatar e com jeitinho conseguir, pelo menos, que o terno fosse salmão.

   O velório estava cheio. Estavam lá todos os parentes e amigos do falecido, inclusive os amiguinhos mais recentes, embecados em luxuosos vestidos de luto. Seu Artur gostou da aparência do filho, embora tenha achado o defunto maquiado demais. Um amigo mais íntimo de Arturzinho, num dado momento do funeral, comentou com o outro:

   - Que horror, a Lu, tão delicada, ser enterrada nesse terno cafona, sem o menor glamour.

   - Que nada, boba - respondeu a outra rindo baixo - Eu conheço o moço da funerária. Por baixo desse terno, mandei botar uma calcinha daquelas!




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