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Verão Gelado


A Cold Summer,
Austrália, 2003.


Com OLIVIA PIGEOT, TEO GEBERT, SUSAN PRIOR, MARIN MIMICA, DAN WYLLIE, PAUL KELMAN.

Música: CLAIRE JORDAN. Fotografia: STEVE ARNOLD. Montagem: PETER WHITMORE. Produção executiva: STUART QUIN. Produção: GRACE YEE. Escrito por PAUL MIDDLEDITCH,TEO GEBERT, OLIVIA PIGEOT, SUSAN PRIOR. Direção: PAUL MIDDLEDITCH.

Exibido no Festival do Rio em Setembro/Outubro de 2003.






Sinopse e comentário.



    Drama. Após ser assaltada e ficar sem sua bolsa, Tia conhece no meio da rua um jovem e bêbado publicitário, Bobby, com quem acaba transando num beco. O jeito largado e distante dele só aumentam a insatisfação dela com a vida medíocre e solitária, que a leva a relacionar-se com cada homem que aparece. Mesmo assim eles continuam se encontrando, agora no apartamento dela, quando ele não está curtindo alguma bebedeira dentro do carro onde mora. Paralelamente, Tia reencontrará Phaedra, amiga de infância que, quatro anos após a morte do namorado, jamais se relacionou com outro homem e tornou-se uma mulher tímida e problemática. Por causa da falta de comunicabilidade, o relacionamento de Tia com cada um dos dois será permeado por encontros, desencontros, pequenos conflitos e mentiras, até a intimidade ir aos poucos trazendo à tona as verdades de cada um.


    No início, incomoda a cara "independente" do filme. A fotografia tremida, granulada e cheia de cortes que intencionalmente quebram o ritmo da narrativa, junto com os diálogos espontâneos parecendo fruto de improviso, sugerem tratar-se de uma brincadeira de fundo de quintal. É preciso que a história avance e reforce os contornos dos personagens para que a má vontade inicial se dissipe, e, na identificação gradual com as "vidas que não vão a lugar nenhum", o espectador termine se rendendo. Verão Gelado é crônica sensível dessa geração que chegou aos trinta sem ter realizado nada e com a cabeça cheia de frustrações. Tema que já serviu de base a todo tipo de produção, mas que aqui recebeu um formato que não apenas lhe conferiu charme, mas credibilidade.


    A iniciativa partiu de uma desilusão amorosa do diretor Paul Middleditch que, disposto a transpor para a tela os sentimentos experimentados, reuniu atores que estivessem vivendo situação semelhante. Com o roteiro elaborado coletivamente, o filme ganhou em sinceridade, e felizmente não se deixou levar por excessos de pretensão de iniciante ou de uma simplicidade falsa, ainda que algumas soluções resultem de forçadas de barra (Tia jamais toparia subir ao palco, da mesma forma que o final de Bobby é pouco convincente). Reproduz com acertos os diálogos desencontrados e as pequenas e desnecessárias feridas que as pessoas cometem umas às outras, muitas das vezes sem perceber o que estão fazendo ou o quanto estão atingindo.


    Os personagens são conduzidos com afeição e sutileza, não raro com um lirismo que interrompe qualquer desvio rumo a extremos depressivos ou violentos. Seqüências como o caminhar perdido de Phaedra pela mata, ou sua investida no balconista da mercearia, demonstram uma franqueza que não teme a pieguice, e graças ao carisma de sua intérprete acabam comovendo. É nessas horas que a câmera, sempre próxima e quase documental, proporciona a necessária intimidade entre personagem e espectador, sem a qual um filme desses não funciona. Para isso também contribuem os acordes de violino que compõem a trilha sonora, um belo acréscimo de emoção em momentos como a citada cena de Phaedra, ou a de Tia, sozinha, ao balanço. Olivia Pigeot, a atriz que a interpreta, diga-se, é um caso sério. Com ela em cena, Verão Gelado até poderia não ser o delicioso filme que é, que já valeria. (M.L.)





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