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Vivendo no Limite


Bringing Out the Dead,
EUA, 1999.


Com NICOLAS CAGE, PATRICIA ARQUETTE, JOHN GOODMAN, VING RHAMES, TOM SIZEMORE, MARC ANTHONY, MARY BETH HURT, CLIPP CURTIS, NESTOR SERRANO, AIDA TURTURRO, SONJA SOHN.

Música: ELMER BERNSTEIN. Montagem: THELMA SCHOONMAKER. Desenho de produção: DANTE FERRETTI. Fotografia: ROBERT RICHARDSON. Co-produção: JOSEPH REIDY, ERIC STEEL. Produção executiva: ADAM SCHROEDER e BRUCE S. PUSTIN. Produção: SCOTT RUDIN e BARBARA DE FINA. Baseado no romance de JOE CONNELLY. Roteiro: PAUL SCHRADER. Direção: MARTIN SCORSESE.

Estréia no RJ: 04.02.2000.




Sinopse e comentário.



    Drama. A estressante rotina no interior de uma ambulância, circulando pelas madrugadas e salvando acidentados, bêbados e doentes numa região barra-pesada de Nova York, vem deixando o paramédico Frank Pierce com os nervos à flor da pele. Há meses sem conseguir salvar uma vida sequer, Frank se alimenta pouco e mal, enche-se de bebida e remédios, e agora está sendo assombrado por alucinações, principalmente a visão de Rose, uma menor de idade que morreu em suas mãos e agora é vista por toda parte. Cada vez mais deprimido com a repetição de casos e pacientes num universo violento e degradante, com a loucura de seus parceiros de ambulância e com a impossibilidade de deixar o emprego (por falta de pessoal, ninguém é demitido), Frank enfim parece animar-se ao conhecer a jovem Mary Burke, filha de um interno que entrou em coma, com quem encontra-se pelos corredores e de quem torna-se amigo. Mas Mary, jovem amarga e introspectiva, é uma ex-viciada, que devido ao problema com o pai está retornando às drogas.


    Se existe alguém que tem o direito de enxergar fantasmas, esse é o paramédico. Chega a ser tanta a proximidade entre os dois mundos, dos vivos e dos mortos, que não raro eles se misturam, produzindo naquele que teoricamente está vivo frases como "Meus pacientes parecem morrer comigo", dita por um Nicolas Cage cuja aparência em todo o filme é mais cadavérica do que as de suas assombrações. Vivendo no Limite, retomada do cineasta Martin Scorsese aos pequenos dramas urbanos novaiorquinos (após obras ambiciosas como Kundun e Cassino), é a crônica desse ambiente sujo e desesperançoso. Seus freqüentadores são mendigos mal-cheirosos, viciados, bêbados, prostitutas e traficantes, todos sofrendo nas ruas ou em hospitais superlotados, sofrendo e sentindo dor, sofrendo e gritando como se após o hospital a próxima parada fosse o inferno. E no meio de toda essa gente condenada Frank Pierce é o anjo em crise tentando expurgar os males do mundo e falhando.


    Trata-se de mais um filme de desajustados sociais, como tantos que Scorsese fez e continuará fazendo de maneira mais ou menos genial, mas sempre interessante. Tendo novamente como parceiro o roteirista Paul Schrader, o cineasta volta à melancolia e à amargura de seu filme mais conhecido, o antológico Taxi Driver, de 1976, novamente direcionando sua câmera para o conflito desses seres que, mesmo sem saber por quê, teimam em reagir a uma situação eternamente desfavorável. "Ele recolhe vítimas, elas morrem e ele sai para o próximo resgate", disse Scorsese, em entrevista. "É como se levasse um soco e partisse, feito uma máquina, para o próximo". Mas Vivendo no Limite reflete as mudanças ocasionadas pela maturidade de seus realizadores. Pierce busca descanso, busca salvar vidas, e, ao contrário de filmes anteriores, encontra a redenção. O filme não é tão sufocante e pessimista, e a realidade que se apresenta na tela é sempre balanceada com um humor que, ainda que negro (e que remete fatalmente a Depois de Horas, de1985), é o mesmo de que fazem uso os funcionários da saúde que vivem dessa rotina. Para reproduzir o dia-a-dia dos paramédicos não faltaram laboratórios e exercícios, além do fato de o autor do livro original, Joe Connelly, ter realmente trabalhado na emergência hospitalar. Todos são unânimes em confirmar que o humor que se vê nos diálogos travados entre Pierce e seus colegas de ambulância Marcus (o hilário negro religioso que promove uma oração enquanto o personagem de Nicolas Cage "ressuscita" um drogado) ou Tom (ex-militar e espécie de sociopata violento que ainda acha que está numa guerra), é uma espécie de proteção para os intermináveis plantões de 24 horas (às vezes mais), uma forma de distanciar-se de tanto sofrimento. Daí não haver surpresa em batizar mendigos como o "Sr. Oh", ou mesmo o deboche com as vozes que Pierce costuma ouvir.


    Falta, no entanto, uma unidade ao filme que harmonize tanto os personagens como a própria narrativa. A Mary Burke interpretada por Patricia Arquette poderia receber um maior cuidado, uma história e algumas falas, algo que não deixasse a impressão de que ela está ali só por estar. Mesmo a trama de Vivendo no Limite, por mais que não persiga uma estrutura linear de princípio, meio e fim, perde a densidade em seu último terço, e no lugar de crescer o filme parece ir caindo. O que não condiz com a mensagem de aceitação dos erros e convivência com as fraquezas, que Pierce aprende ao ver pela última vez o fantasma de Rose.


    Há que se elogiar a fotografia. Às vezes estourada, às vezes sóbria, é um dos bem sucedidos responsáveis por fazer o espectador sentir-se dentro do universo noturno, urbano e opressivo do filme, seja nas seqüências do hospital, seja dentro da ambulância, sob a luz vermelha da sirene. A destacar também o desempenho de Nicolas Cage. Quando parece que ele vai passar o filme inteiro com a cara de morto-vivo, ele surpreende na seqüência na casa do traficante, ao perguntar se Mary ingeriu a tal "Morte Vermelha". Dá gosto ver cenas como essa, principalmente porque são cada vez mais raras no cinema atual. (M.L.)










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