Woody Allen in Concert Wild Man Blues
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Wild Man Blues,
EUA, 1997.
Documentário com WOODY ALLEN, LETTY ARONSON, SOON-YI PREVIN,
EDDY DAVIS, DAN BARRETT, SIMON WETTENHALL, JOHN GILL, GREG COHEN, CYNTHIA SAYER,
NETTIE KONIGSBERG, MARTIN KONIGSBERG.
Montagem: LAWRENCE SILK.
Fotografia: TOM HURWITZ.
Produtora associada: KATHLEEN BAMBRICK MEIER.
Produção executiva: J. E. BEAUCAIRE.
Produção: JEAN DOUMANIAN.
Produção e direção: BARBARA KOPPLE.
Estréia no RJ: 14.08.1998.
Sinopse e comentário.
Documentário. Autor de filmes como Hannah e Suas Irmãs,
Desconstruindo Harry e Poucas e Boas, o cineasta americano Woody Allen mantém em
paralelo uma faceta musical que é pouco conhecida do grande público. Junto a uma banda do
chamado "jazz de New Orleans", Allen apresenta-se como clarinetista todas as segundas-feiras no
Michael’s Pub, em Nova York, num show que, embora não tenha maiores pretensões além da paixão
pela música, é levado tão a sério pelo cineasta que já o fez diversas vezes ignorar a premiação
da Academia de Hollywood para ficar tocando. Em 1996 a banda resolveu fazer uma turnê pela
Europa, com concertos em Paris, Madrid, Viena, Veneza, Milão, Bolonha, Turim, Roma e Londres. O
filme acompanha Woody Allen, sempre acompanhado da namorada (que um dia também foi enteada)
Soon-Yi Previn, não apenas durante as apresentações, mas também nos passeios turísticos, nas
seguidas seções de autógrafos e fotografias, em entrevistas e encontros com políticos, até o
retorno para casa e o encontro diretor e músico com seus pais.
Mal chega a Paris e Woody Allen já comenta que a turnê é "cansativa".
Reclama da presença do cachorro da irmã e produtora Letty Aronson, e num hotel em Madrid
comenta que o omelete servido parece de borracha. Em outras ocasiões, explica sua paranóia por
ter sempre um banheiro só para ele e seu monte de cosméticos e cremes e remédios. Em Viena,
passa mal e diz, durante um passeio de gôndola com Soon-Yi, que a tranqüilidade é tanta que "se
o gondoleiro nos matasse, ninguém saberia". Hipocondríaco, sarcástico, às vezes depressivo, o
cineasta pareceria apenas um velho baixinho e ranzinza, não fosse o extremo talento e o absoluto
profissionalismo que dedica a tudo aquilo a que se propõe. São exemplos o rigor com a prática
do clarinete, a naturalidade com que manteve a banda tocando no escuro, num teatro em Milão
atingido por um blecaute, e a apresentação gripado, em Londres. Ainda que como músico Allen não
atinja o mesmo nível do cineasta, sua presença basta para encher os teatros onde a banda se
apresentou, e garantir os entusiasmados aplausos ao fim de cada apresentação.
E, de fato, ele é bastante querido em toda a Europa. Seus filmes
inclusive fazem mais sucesso lá do que nos EUA, sua terra natal, embora em qualquer das regiões
sua figura já tenha se tornado referência cultural. Neste documentário, a diretora Barbara
Kopple não quis só revelar o Woody Allen músico, mas também o ser humano escondido atrás dos
óculos, da palidez e da calvície. Ainda que não se aprofunde muito, flagra-o comentando seu
relacionamento com Soon-Yi (que nunca viu Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e acha
Interiores "arrastado e maçante"), tecendo mordazes comentários acerca da política e,
principalmente, conversando com os pais, na volta a Nova York. A mãe não se furta a dizer, na
cara da possível nora vietnamita, que preferia o filho casado com uma mocinha judia, enquanto o
pai resmunga que, só porque ganhou uns prêmios e fez uns filmes, o filho pensa que é alguma
coisa. Quanto a Soon-Yi, não se entende mesmo o que os dois têm a ver um com outro, e a imagem
que fica é mesmo a de pai e filha, fortalecida pelo fato de que em nenhum momento os dois se
beijam. Mas isso é problema deles, e não parece estar interferindo na carreira do cineasta.
Há que se destacar, para quem não conhece, a surpresa que é o tal "jazz
de New Orleans". O próprio Allen explica que New Orleans é o berço do jazz, e, para usarmos um
termo da moda, pode-se dizer que o gênero tocado pela banda é um "jazz de raiz". O som é
delicioso e antiquado, lembra às vezes aquelas musiquinhas que acompanhavam os filmes do Gordo e
do Magro, algo nostálgico, mas que o banjo, o trompete e o clarinete dão um toque de ingenuidade
e humor. Quando está solando Allen se permite sair um pouco da figura contida a que estamos
acostumados, e o balançar desajeitado denota pura emoção. Wild Man Blues certamente não
aumentará o público do diretor (que vem amargando bilheterias cada vez menores nos EUA), mas é
um belo registro, e um afago para aqueles que sabem admirar a sua obra.
(M.L.)
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